EDITORIAL – O percurso da tragédia anunciada em Natal e a manipulação eleitoral do sonho da proteção contra covid-19

O anti-intelectualismo em voga entre as elites locais é comprado pelos pobres como privilégio. Daí copiam: “se empresário fulano, médico beltrano estão tomando, é porque deve ter efeito”, imaginam. Os ricos do RN se empanturraram de ivermectina como profilaxia, mesmo sem comprovação alguma. A notícia se espalhou através de grupos de whatsapp. Agora o restante da sociedade também quer e esse desejo será manipulado em eleição. O prefeito de Natal em busca da renovação do mandato, Alvaro Dias, disse em seu twitter que o remédio previne contra covid-19 e irá distribuir 1 milhão de comprimidos. É a lógica da tragédia em curso em Natal.

SEM COMPROVAÇÃO

A ivermectina não tem comprovação científica no combate ao coronavírus. Muito menos como ação profilática. Ainda assim, virou a nova panaceia do momento. Os otimistas – eu, inclusive – achavam que a lição havia sido incorporada com a cloroquina, remédio prometido como elixir, mas que não apenas foi derrubado pelas pesquisas, como também demonstrou efeitos colaterais dignos de nota contra sujeitos portadores de doenças cardíacas. Ledo engano.

O vermífugo só funcionou em teste em laboratório. Porém, a maioria das drogas que apresenta sucesso em laboratório contra uma doença, não demonstra o mesmo exito no corpo humano. É uma fase meramente preliminar. Daí a necessidade de avaliar o efeito em animais e depois em humanos.

As informações são públicas e constam em qualquer coluna de divulgação científica dos jornais. Mesmo na condição “in vitro”, para matar o vírus, os pesquisadores utilizaram uma quantidade equivalente a mais de 160 comprimidos de ivermectina, uma dosagem impossível de ser ingerida pelo homem, sob pena de morte. Os australianos autores do estudo recomendaram cautela quanto a qualquer conclusão precipitada e defenderam maiores avaliações sobre o emprego do remédio pra verme contra covid-19.

Só para se ter ideia do quanto o assunto é complexo e o teste em laboratório não deve levar a nenhuma conclusão; nessa condição, a ivermectina também matou o vírus HIV (leia aqui ou aqui ou aqui). Não há notícia de que ele esteja curando pessoas portadores do vírus citado.

O PERIGO

Em pleno processo de flexibilização do comércio, entregar um remédio prometendo proteção contra uma doença incurável, que hospitaliza em demasia e mata, é a base para o problema. Quem levar essa informação em consideração ao pé da letra, poderá ficar tranquilo e relaxar para as práticas realmente eficazes, o uso de máscara, medidas de higiene e distanciamento físico.

Em seu twitter, o prefeito Álvaro Dias promete um milhão de comprimidos de ivermectina e diz que “está comprovado que esse medicamento é eficaz na prevenção contra o coronavírus”.

Já há, por exemplo, estudos que apontam que, aqueles que acreditaram que o coronavírus era gerador apenas de uma gripezinha, conforme defendeu o preisdente Jair Bolsonaro, não apenas deixaram de cumprir o isolamento, como apresentaram maior probabilidade de compor as estatísticas de alcançados e mortos pela covid-19 (leia aqui).

A questão, portanto, não é apenas com relação ao desperdício de dinheiro público, que deveria ser empregado em políticas públicas com base em evidências científicas. Trata-se de um percurso para a formação de uma tragédia. Diante do contexto, dizer que a ivermectina protege contra o coronavírus é sinônimo de encaminhar os natalaneses para o abatedouro.

Conforme estudos desenvolvidos na Coreia do Sul, país que fez ampla testagem dos assintomáticos, 80% dos acometidos pela covid-19 sequer desenvolvem os sintomas ou se curam a partir de manifestações leves da doença, semelhantes a de uma gripe. Esses serão enganados pela sensação placebo e agradecerão por um desempenho atribuído ao “remédio do prefeito”, que na verdade, tem relação com o curso natural do seu corpo na interação com o coronavírus. A consequência será de estelionato eleitoral, o que já não será pouco. Porém, 20% precisarão de cuidados clínicos, dos quais 5% de UTI e 1% virá a óbito. Ou seja, haverá quem pague a fatura com a própria vida.

O prefeito Álvaro Dias diz que a ação tem a chancela do seu comitê científico local. É bom que os cientistas, até agora praticamente anônimos, venham a público dizer se concordam mesmo com a operação.

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