O problema do politicamente correto em pesquisas de opinião e o levantamento sobre o perfil dos manifestantes do dia 26

O PROBLEMA DO POLITICAMENTE CORRETO EM PESQUISAS DE OPINIÃO E O LEVANTAMENTO SOBRE O PERFIL DOS MANIFESTANTES DO DIA 26

Na pesquisa de opinião entrevistador e entrevistado desempenham papéis. São dois sujeitos ativos com atitudes performáticas. A carência da percepção de tal pressuposto pode melar uma sondagem, levando a resultados pouco fidedignos.

O entrevistado não é um livro aberto. Ele traça estratégias, na medida em que identifica e percebe as intenções do pesquisador através das questões que são dirigidas a ele. A exata compreensão do significado contextual da relação entre pesquisador e respondente é fundamental para não ficar preso nas respostas politicamente corretas. Quando as indagações são muito diretas e incisivas, o inquirido pode ser forçado a esconder suas reais posições, temendo o julgamento do entrevistador.

Por exemplo, se você perguntar a alguém se ele votaria em algum candidato envolvido num escândalo de corrupção, obviamente ele dirá que não. Na prática, porém, o cenário do voto é mais complexo e o eleitor levará em consideração outros fatores. Como fugir das respostas politicamente corretas? Ora, em alguns casos é preciso ir ao tema de maneira lateral como forma de superar tais barreiras.

Por exemplo, o portal UOL veiculou uma interessante sondagem feita por uma base de pesquisa da USP durante os protestos do último dia 26 na cidade de São Paulo. Além do perfil do manifestante, o levantamento chegou a conclusão de que a grande maioria foi às ruas a favor da reforma da previdência.

Diz o coordenador da sondagem, o professor Pablo Ortellado: entre uma lista de motivos para ir à manifestação, o apoio às reformas (75%) predominou sobre o apoio a Lava Jato (8%) e a rejeição do STF (6%) e ao Centrão (6%). A confiança na imprensa foi baixa: Folha tem 4% e Globo 2%.

Ora, esse resultado só é compreendido deste modo porque a pergunta é feita de forma muito direta: por qual motivo você se encontra aqui. Vale lembrar que os protestos foram desencadeados após o presidente Jair Bolsonaro divulgar uma carta em que alega que o congresso e o STF não deixam ele governar. No entanto, durante toda a semana seguinte, líderes bolsonaristas, além do próprio presidente, tentaram desradicalizar algo já extremado, oferecendo nova narrativa que não a que constrangia o legislativo e o judiciário.

Enfim, minha hipótese é que a pesquisa de opinião mencionada capturou o motivo politicamente correto apresentado como narrativa justificadora para os protestos e não o que levou aquelas pessoas a estarem ali. Diante do entrevistador fazendo uma pergunta tão incisiva, o respondente jamais passaria de defensor do ataque às instituições. Ele sabe que isto pegaria mal diante de uma sondagem.

Como fugir do politicamente correto no cenário desenhado? Eu teria perguntado também contra quem e contra o quê eles protestavam, mas de uma maneira mais lateral. Vale enfatizar que trata-se de uma hipótese e só outra sondagem poderia derrubar o levantamento já aplicado.

Veja a pesquisa aqui:

Pesquisa no ato Juntos contra o centrão 26/05/19

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