O que é ser “esquerdista” na Natal bolsonarista

Com a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, o bolsonarismo anterior ao presidente já presente nas terras de poti perdeu completamente a vergonha e mostrou sua cara de forma aberta, límpida e sem qualquer arrodeio. Não estamos falando mais de um movimento majoritário, é verdade. Pelas últimas pesquisas de opinião, o capitão é mal avaliado na cidade e perde para o ex-presidente Lula. Só que ele é hegemônico entre aqueles ocupantes das posições de mando na imprensa, na classe empresarial e em parcela considerável da classe política. E como o poder de impor opinião é desigualmente distribuído, conforme nos ensinou o sociólogo Pierre Bourdieu, tal minoria tenta estabelecer um enquadramento incomum em relação aos críticos do “Mito”, assim chamado por aqueles ignorantes sobre que tipo de liderança era desse modo entronizada num passado não muito distante.

Qualquer moderação diante do extremismo de direita virou sinônimo de esquerdismo. Trata-se de algo absolutamente fincado numa visão ideológica da realidade carente de faticidade. Até porque, quando se aloja num ponto limite da escala, tudo o que vier de contrário passa a ser o oposto.

Desde 2018, o eixo espacial que começa em Ponta Negra e termina ali mais ou menos em Petrópolis enlouqueceu. Ou se mostrou de vez. A aposta em um deputado ressentido, inoperante e animador de auditório – não é uma metáfora – de baixo clero trouxe expectativas caracterizadamente hilárias. Talvez por se olharem no espelho com a percepção de quem se acha, viram em Bolsonaro a chegada de uma líder como Angela Merkel só que de paletó.

A realidade logo se impôs, mas daí vieram as apostas que continuam a ser dobradas até hoje. Em Natal, atravessamos uma trágica pandemia na qual a defesa do respeito à ciência, do conhecimento especializado e do papel central das agências reguladoras na administração de remédios viraram delírio de esquerdistas. Os melhores quadros da infectologia do RN foram sumidos – o médico e professor da UFRN, Kleber Luz, era, disparado, o mais entrevistado até o momento em que ele disse que ivermectina era para piolho – em favor de profissionais com lattes que não preenchem uma página. Teorias conspiratórias, meias verdades e mentiras inteiras passaram a habitar a esfera pública como explicações legítimas, tudo para se alinhar ao populismo sanitário presidencial. Os críticos perderam espaço, a sensatez virou comunismo.

A tragédia está escancarada. A saída do remédio para cavalo virou piada mundial e nos colocou no topo de óbitos do mundo. Os seus defensores se apresentaram por inteiro – recentemente, nos brindaram com o grand finale de recusar as vacinas que derrubaram os índices de mortes por covid no Brasil. Quando não têm suas contas derrubadas por desinformação, as últimas manifestações das estrelas do negacionismo local são objeto para a psiquiatria.

Não deixando a peteca cair, no reino da análise política esta minoria vive igualmente alojada no fantástico mundo de bobby. A governadora Fátima Bezerra, aquela que fez uma reforma da previdência, implementou teto de gastos estadual, é aliada de parte do PSDB e abre diálogo com o PMDB é radical. O presidente, que cria uma crise institucional diária, corrói as instituições em seu cotidiano e ameaça com golpe com a mesma frequência que o brasilerio toma café, é pintado como estadista.

As falas de quem ainda tenta apresentar moderação na proteção das bizarrices bolsonaristas chegam a fazer pena, dada a tarefa hercúlea. Todos os dias o articulista é obrigado a matizar que a ação, o ato e o discurso de ocasião de Bolsonaro estão errados. Porém, há pontos positivos – nunca mostrados – em seu governo. E que a oposição é culpada por provocar o coitadinho do presidente e tudo de ruim no país.

No momento em que a inflação galopa, a fome alcança quase metade da população e somos objetivamente um dos últimos países a avançar com a vacinação, Bolsonaro eleva o tom. Diante da inacreditável inoperância frente a crise energética, tendo como única medida direta o pedido para o brasileiro economizar, a rejeição do capitão inviabiliza sua reeleição. Em Natal, porém, o grupo aqui tratado segue multiplicando o sonho do jardim da infância de que o cenário vai mudar, um presidente que sequer tem um partido não vai cumprir suas promessas já em curso de tumultuar a eleição e finalmente renovar o seu mandato. Quem segue dizendo que o rei nunca utilizou roupa assiste de camarote, até porque está chegando a hora do castelo de carta ruir de vez. E não terá operação que dê jeito de apagar quem vestiu o figurino golpista.

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