Pais de alunos de um colégio de Natal foram colocados diante do mundo que estão criando e não gostaram

Alguns pais de alunos pressionam um colégio tradicional de Natal porque um professor abordou o tema da violência policial, do racismo e do desmatamento do governo Bolsonaro, através de charges em uma prova. Como não poderia deixar de ser, a celeuma ganhou as redes sociais.

Recentemente, diversas matérias foram publicadas, dando destaque ao atlas da violência de 2020. Segundo o mapeamento, o Brasil cultiva números bastante elevados de violência policial e o principal alvo são os negros.

Também nos últimos dias, dados foram publicados por agências internacionais e nacionais sobre o crescimento da desmatamento durante o governo Bolsonaro. Já há boicote organizado por países europeus contra produtos brasileiros em face da situação. A amazônia e o pantanal ardem em chamas e o governo federal agiu, cortando as verbas do IBAMA e para o emprego de brigadistas. O apoio a garimpeiros e madereiros contra ambientalistas segue nos jornais desde o início de 2019 e já ganhou as páginas da imprensa mundial.

Em resumo, a matéria trata de obviedades factuais. Mas se o conteúdo é tão cristalino, por que incomoda tanto a um pai ver seu filho tendo acesso a um texto que retrata criticamente uma realidade? O que faz disparar sua raiva a ponto de pedir a cabeça de um professor e realizar uma campanha contra uma escola?

Ora, porque uma situação como a proporcionada coloca o apoiador das situações narradas acima diante do mundo que ele está criando e a reação acaba sendo de negação, projetando no outro algo que é de sua incumbência. A acusação de doutrinação ideológica é a proteção do próprio ego realizado como ataque contra quem expõe as inconsistências do que ele defende.

Basta saber interpretar um texto para compreender que não há “generalização contra a polícia”. Os bons policiais não foram ali enquadrados e eles também certamente sabem que trata-se de uma realidade dura, mas existente. É o defensor do mata e arrebenta que se dói, do bolsonarismo pró-desmatamento, toscamente pintado como desenvolvimento, que não aguenta olhar para a charge e ficar tranquilo.

O ensino deve sim mexer, levar à reflexão e ser instigante. E tal operação só ocorrerá com liberdade e autonomia. Não é com patrulha que a interação professor e aluno irá funcionar de modo pleno. Varrer os fatos para debaixo do tapete nos deu 120 mil mortes numa pandemia e nos colocará no topo negativo, não importa a métrica que se queira aplicar. Se não quiserem que seus filhos reproduzam a tragédia que a nossa geração gerou, pais ajudarão bastante se permitirem que jovens realizem suas potencialidades e que os profissionais de educação façam os seus trabalhos sem amarras. É a lição que um mundo complexo e sinuoso, sem respostas fáceis, tem a nos ensinar.

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