Pandemia: tragédia e farsa em Natal

Seria cômica a forma como a tragédia e a farsa se uniram em Natal durante a pandemia de covid-19, se isto não ocorresse ao custo de muitas mortes e a escancarada tetantiva de esconder a operação que tornou o atual cenário possível. Sim, ao contrário de todos que querem apresentar a morte como sinônimo de fatalidade, ir a óbito pelas mãos do coronavírus não foi e não é nada natural. Em longo texto, discorro sobre a maneira como o coronavírus chegou e se alastrou em Natal e como os atores político se relacionaram com o fato.

PAI DO NEGACIONISMO

O capilarização da doença que mais mata hoje por dia no país só se efetiva a partir da estratégia negacionista que vem do governo federal, o que rende a constante menção negativa do presidente Jair Bolsonaro nos principais jornais do mundo como exemplo acabado sobre o que não fazer em 2020.

O Brasil desperdiçou meses de planejamento antecipado, perspectivas de controle e realização de ações contra a pandemia porque o assunto foi simplesmente ignorado pelo presidente da república. Quando em Janeiro/Fevereiro a China já dizia ao mundo o que fazer contra o covid-19, montando hospitais de campanha em dias, fechando fronteiras, alcançando os doentes e testando quem teve contato com eles, isolando comunidades inteiras com surtos da patologia, em março o presidente desencorajava qualquer cuidado e precaução.

Ao invés de utilizar o ministério da saúde para desenvolver um planejamento de isolamento social para as regiões e liderar esse processo, agiu para manter as pessoas na rua. Mesmo derrotado na justiça contra as ações específicas de abertura e fechamento dos comércios locais, continuou espalhando de forma oficial e oficiosa teses, fake news e avaliações falsas desincentivando qualquer ação contra a covid-19. Quem acreditou nele, conforme pesquisas desenvolvidas pela UFABC e pela FGV (leia aqui), morreu mais do que quem não acreditou. Entre a vida e a economia, Bolsonaro escolheu a cloroquina, um remédio hoje em desuso no mundo para covid-19 pelas dezenas de pesquisas que apresentaram sua ineficácia.

A TRAGÉDIA CHEGA A NATAL E O NEGACIONISMO DO GOVERNO FEDERAL ENCONTRA APOIO DO MP E DAS CATEGORIAS MÉDICAS

A pandemia chega na cidade do sol pelos aeroportos, que, aliás, o governo federal impediu a formação de barreiras sanitárias que estavam sendo tocadas pelo governo do RN. A Advocacia Geral da União entrou na justiça para que as barreiras não fossem feitas. A sentença contra a formação de barreiras é publicada no dia 25 de março (leia sobre a sentença e sobre a pesquisa acerca do assunto aqui).

Na partida, tanto o governo do RN, como a Prefeitura do Natal, começam bem, desenvolvendo planejamento para a formação do isolamento social e para a preparação do estado contra a pandemia.

O negacionismo ganha dois protagonistas locais. Primeiro, o discurso anti-evidência vem do Sindicato dos Médicos do RN (Sinmed), pelo seu presidente Geraldo Ferreira. Em dezenas de declarações, falou em terror desnecessário e que o sistema de saúde do RN estaria preparado para a pandemia. Chegou a assegurar que aqui não faltariam leitos. Mesmo com o incremento de 415 leitos pelo Governo do RN e 120 pela prefeitura do Natal, além de outros em outras cidades, 270 pessoas morreram no RN sem atendimento até agora. O negacionismo foi referendado pelo Ministério Público.

Ambos agiram contra a contratação de um hospital de campanha, que seria alojado no Arena das Dunas. As motivações eram distintas. O MP estava preso a ideologia lavajatista de que “recursos seriam desperdiçados” e que era preciso investir na própria rede, aceitando tacitamente que o sistema de saúde atual era suficiente. O Sinmed canalizava a insatisfação de setores médicos do RN, pelo fato do contrato do hospital de campanha ficar com uma organização social de outro Estado. O whatsapp foi inundado por correntes de médicos, memes e outros conteúdos dando conta de que o contrato não passaria de mero desperdício de recursos e manobra para corrupção.

É neste momento que o Governo do RN comete seus dois erros fundamentais no combate à pandemia. Primeiro, aceita a recomendação do Ministério Público e a pressão de parte da imprensa e de grupos dominantes da cidade contra o gasto com publicidade educativa a respeito da covid-19. O MP alegou desperdício de recurso , mais um sinal de que não tinha a menor ideia do problema que se avizinhava; os grupos dominantes simplesmente queriam deixar a governadora sem voz, silenciada. Enquanto os prefeitos de Natal e da grande Natal gastaram – acertadamente – com propaganda durante o período, sem crítica alguma pelos mesmos que atacaram Fátima Bezerra, a governadora não pode também aparecer. Isto ajudou a sedimentar a impressão de que o governo do RN nada fez no cenário adverso.

Segundo, não ergueu o hospital de campanha. Sim, o governo do RN abriu centenas de leitos na rede pública, atendendo ao pleito da classe médica e fez o hospital de campanha dentro da liga contra o câncer. Só que a preocupação das lideranças da classe médica não era com a rede de saúde, mas com melar o contrato do governo do RN com organização social de fora. Tanto que, quando a prefeitura de Natal abriu um hospital de campanha, contrariando a tese, não sofreu os mesmos ataques. Motivo: fechou os contratos com as cooperativas médicas locais. Sem o hospital de campanha explícito e novo, parte da população não formou a exata percepção de que leitos foram abertos porque eles estão inseridos em hospitais já existentes.

Recentemente, o Ministério Público reconheceu que errou em sua avaliação inicial da pandemia. O sinmed segue devendo explicações.

PREFEITURA DO NATAL CEDE À PRESSÃO DOS REPRESENTANTES COMERCIAIS E AGE SEM TRANSPARÊNCIA

No momento em que a resposta à pandemia começa a se desenvolver, é quando a atuação negativa da prefeitura do Natal começa a se destacar. Em pleno crescimento dos casos e das mortes, o prefeito Álvaro Dias autoriza a abertura do comércio do Alecrim e o funcionamento das feiras livres da cidade. Assustadoras para o contexto, as imagens dos formigueiros de gente formados tornaram-se cotidianas. Questionado pelo isolamento, Álvaro Dias era ambiguo: se dizia defensor, mas que seguia exclusivamente o que dizia o Governo do RN. Ele encontrou o timming para lucrar politicamente com o isolamento entre quem era a favor, mas sem contrair a rejeição entre os que eram contrários, jogando a responsabilidade nas costas de Fátima Bezerra.

Enquanto a prefeitura do Natal botava o pé em duas canoas, defendendo o isolamento mas não fazendo a política ser efetivada, cabe destaque a atuação do seu secretário de saúde. Na deflagração da pandemia, o médico George Antunes garantiu em audiência pública na câmara municipal do Natal, que o sistema não colapsaria. E emendou: estão fazendo terror em torno da chegada do coronavírus. Posteriormente, sem mencionar as ações do seu prefeito contra o isolamento social, que contou com o seu silêncio, e as suas próprias falas, minimizando o perigo do problema, conclamou a sociedade a ficar em casa e a não ouvir nenhum “político”. A sua indignação causou impacto e o efeito de eclipsar, não sabemos se buscado de forma premeditada, a forma como a prefeitura do Natal agia de maneira dúbia contra o isolamento social deu certo.

A estratégia da prefeitura do Natal de deixar o governo do RN falar sobre os problemas, mortes e cortar o barato das pessoas sobre a abertura da economia se intensifica. Enquanto o governo do RN fazia coletivas de imprensa diárias e liderava no Brasil os rankings de transparência sobre a pandemia, a Prefeitura do Natal ia no caminho inverso. O prefeito pouco apareceu para expor o cenário adverso da pandemia na cidade, chegando a retirar Natal da fila de atendimento e distribuição de leitos, o “regula RN”. O ministério públicou, agente fiscalizador da fila, acusou o prefeito de usar a distribuição de vagas entre os doentes para fins políticos. Ele conseguiu instituir uma lógica informacional, que foi a seguinte: falar sobre problema? Governo do RN. Apresentar soluções, com o uso da publicidade empregada em horário nobre da Tv? Prefeitura do Natal.

PREFEITURA DO NATAL PASSA A SE MOVER EXCLUSIVAMENTE PELA PERSPECTIVA DE REELEIÇÃO DO SEU PREFEITO

Em pleno pico da pandemia, a Prefeitura de Natal degringola de vez nas ações racionais de planejamento e passa a agir completamente voltada para a reeleição de Álvaro Dias. A prefeitura anuncia a execução de “testagem em massa” com a aplicação de 20 mil testes rápidos. O anúncio era bisonho por tudo o que envolvia o ato. O teste aplicado, conforme diz a própria página da prefeitura do Natal (leia aqui), tem valor epidemiológico. Faria algum sentido se fosse aplicado para fazer controle de populações. Por exemplo, para aplicar, através de amostra estatística representativa, para entender a evolução da pandemia na cidade e elaborar ações. Aplicado sem qualquer critério, anunciando e chamando toda a população, o seu efeito contra a pandemia era zero. Nenhuma ação de combate e planejamento foi efetivada contra a pandemia em Natal municiada por aquela testagem. Mas o ganho político era enorme: após ampla publicidade, milhares de pessoas e famílias ganharam testes gratuitos.

Álvaro criou a sensação de falsa liderança diante do covid-19. Ele percebeu que, do ponto de vista político, não importava necessariamente enfrentar a pandemia. Basta configurar a ideia de que ele enfrentava mais do que os outros poderes.

A ironia é que, no mesmo momento, faltavam testes nas Unidades Básicas de Saúde de Natal, o que só foi resolvido com o socorro da UFRN (leia aqui). Lá, ao contrário do que aconteceu com a ação de distribuição de testes, os critérios eram respeitados. Só teria acesso ao insumo limitado aquele que passou por um médico e recebeu indicação para tanto.

O ministério público tentou garantir o emprego devido dos testes, acionando a prefeitura do Natal na justiça para que a distribuição irracional do ponto de vista da estratégia epidemiológica, mas racional em prol da elevação da imagem do prefeito, não ocorresse. Porém, a justiça decidiu não interferir.

A OPERAÇÃO PLACEBO

Se o governo do Estado tinha de falar da falta de leitos e mortes, comunicando a sociedade sobre a gravidade da pandemia, a prefeitura do Natal discursiva sobre diagnóstico (teste) e cura (remédio). Do ponto de vista factual, os testes foram jogados fora e a covid-19 não tem remédio reconhecido de combate direto. Mas enquanto o isolamento social, ainda que parcial, desacelerava a curva e impedia que mais pessoas morressem sem atendimento, o Prefeito de Natal continuou com sua estratégia, agora ajudado por médicos políticos e/ou com pretensões políticas e de sua base de apoio preocupados em aparecer com a crise. Surgia o mito da Ivermectina.

A estratégia era basicamente a mesma da cloroquina, a panaceia presidencial, agora secundarizada pela publicação de dezenas de estudos randomizados, demonstrando a sua ineficácia além de contra-indicações cardiácas. Rasgando os seus diplomas ou revelando o conhecimento que têm do fazer científico, tais médicos encheram a imprensa com falsas conclusões sobre o poder preventivo do remédio para verme. A afirmação bombástica de que existia um remédio barato e de fácil acesso capaz de proteger contra a covid-19 se espalhou feito rastilho de pólvora pelos grupos de whatsapp. Exemplos de pessoas da elite anti-intelectualista de Natal, que estavam tomando, se multiplicaram. Os pobres significaram o ato impensado e sem alicerce algum na realidade como um privilégio e saíram atrás do remédio para piolho. Uma caixa que custava 8 reais passou a ser comercializada a 100. A polícia prendia contrabandistas trazendo ivermectina para Natal de outros estados. “Se não tiver efeito, mal não faz”, era possível ouvir na boca de não poucos. Ora, a questão não é essa. Mas o fato de que, a partir do momento em que a população acha que há remédio que previne, a consequência lógica é afrouxar o isolamento. Aliás, ele nunca ficou tão baixo. Conforme anúncio do governo do RN, depois de um tempo, ele passou a gravitar sempre abaixo dos 40%.

Querendo capitalizar a boa nova, o prefeito Álvaro Dias divulgou a distribuição de 1 milhão de comprimidos de ivermectina, remédio que, segundo ele, previne contra covid-19.

CRMs APARELHADOS

Ora, se o conselho federal de medicina e os respectivos conselhos regionais não estivessem aparelhados pela ideologia bolsonarista, os médicos que vieram a público, inclusive o próprio prefeito de Natal, que também é médico, defender e alardear o efeito profilático da ivermectina contra covid-19 receberiam, no mínimo, uma reprimenda através de nota divulgada em todo o Rio Grande do Norte. O CRM diria que a população não levasse a recomendação de tomar ivermectina como profilático para covid-19 em conta, já que não há evidência científica (ou seja, não funciona), a droga não é utilizada com esse propósito conforme nota da própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a auto-medicação é ilegal e perigosa. Mas não. Deu o silêncio como resposta.

ÁLVARO UTILIZA A PANDEMIA PARA POLARIZAR SOBRE 2020 E PARA ESCANTEAR CEA EM 2022

O prefeito Álvaro Dias continuou na sua estratégia de utilizar a pandemia para gerar uma polarização já pensando na sua reeleição. Sua narrativa caminha para resumir o pleito de 2020 em um plebiscito entre sua atuação, dando testes, hospital de campanha e remédios, e a do PT da governadora, que seria contra a economia e “não fez nada”. Ou seja, ele se aproveita da percepção de que a governadora Fátima Bezerra não fez uma “hospital de campanha” porque os leitos novos foram abertos na rede existente e não deu remédio que previnem (sic), nem testes em massa (sic). Com publicidade diária sem qualquer emprego educativo contra covid-19, mas falando de hospital de campanha, inclusive quando ele sequer operava, ações de calçamento e saneamento, enquanto a governadora estava silenciada, a operação funcionou.

Desta forma, ele limpa os adversários do seu campo no âmbito da direita e resume a disputa entre direita X esquerda. Está escancarado que quer a disputa em torno dele e de uma candidatura do PT. A pandemia ficou pra trás. Não na prática, mas como horizonte para a prefeitura do Natal. Tanto que, se antes as questões de isolamento eram de responsabilidade do governo do Rn, conforme suas próprias palavras, agora ele corre para abrir a economia primeiro, um dia antes. Uma forma simbólica de demonstrar liderança. Sem atender critérios técnicos elencados pelo comitê científico estadual, continua abrindo as demais fases de flexibilização. O alvo é 2020 e a formação do plebiscito, não a economia ou a pandemia.

Nessa história, já lança discurso também para 2022. Claro, dois anos são muito tempo. Mas, se antes Alvaro Dias foi colocado como vice-prefeito de Carlos Eduardo Alves por ser alguém sem expressão em Natal para garantir os interesses do PMDB, agora, após sua popularização na pandemia, a meta é ser reeleito e se lançar ao governo do RN em 2022.

Ainda que CEA tente encenar a ideia de que é ator de peso em Natal, é óbvio que, com a máquina na mão e nas comunidades todos os dias, Dias não depende de Carlos Eduardo Alves para se reeleger em 2020. É Carlos Eduardo Alves que depende da reeleição de Álvaro Dias e do próprio para viabilizar sua candidatura em 2022. A não ser que CEA tenha algo que segure Dias, o que não cabe aqui especular, a probabilidade dele sobrar em 2022 é elevada. Seu aliado trabalho para isso.

AS ELITES DE NATAL QUEREM ÁLVARO DIAS EM 2020

Faz tempo que não há um consenso entre as elites tão forte como o que gira em torno da reeleição de Dias. Lembra a operação que foi feita para eleger Henrique governador em 2014.

A Câmara Municipal do Natal segue como franca aliada. Não há um movimento de oposição organizado digno de nota.

A imprensa tem ocultado informações ruins contra o prefeito e inflado as positivas em um viés que beira a irresponsabilidade com a vida das pessoas. Se 10 de 12 professores do depto de infectologia da UFRN assinam nota, mostrando o que funciona e o que não funciona contra a covid-19, desmanchando de forma polida a operação placebo da ivermectina, são os 2 médicos que não assinaram que viram notícia. E pior. Sem qualquer apuração. Não sabemos porque eles não assinaram. Mas a ideia transmitida é que eles não assinaram porque são contrários ao conteúdo da nota.

Se 300 médicos assinam nota defendendo tratamento precoce, ao contrário da nota da UFRN, os milhares de médicos que não assinaram são esquecidos. E “tratamento precoce” – algo que todo mundo concorda – vira sinônimo do endosso da operação placebo da prefeitura do Natal, ainda que não tenha nada escrito lá a respeito. Álvaro encontrou um consenso na imprensa que Carlos Eduardo Alves nunca conseguiu em Natal.

Álvaro Dias é um político sagaz. Como disse, entregou todos os contratos para os líderes empresariais da área médica de Natal. Com isso, trouxe a classe médiça, protagonista em momento de pandemia, para o seu lado.

A FIERN rasgou o próprio plano de abertura da economia que publicou com ampla publicidade, para seguir o que disse o prefeito de Natal sobre a flexibilização. A operação contemplou a já estabelecida aproximação com as associações comerciais de Natal.

Álvaro é do mesmo partido do presidente da câmara, Paulinho Freire, e da Assembleia Legistiva do RN, Ezequiel Ferreira de Souza.

E o antipetismo das elites locais não desapareceu. Álvaro Dias sabe que, na hora da eleição, a ideologia antipetista falará mais alto do que seus muitos problemas quando passou pela Assembleia Legislativa do RN. Daí agir pela captura da bandeira.

Com a família Maia e Alves ainda gozando de muito poder, mas sem a moeda da política, o voto, Álvaro hoje é o sonho de manter vivo o polo para impedir a reeleição de Fátima Bezerra em 2022.

Fiern, Cdl, imprensa, poderes, etc, tiveram tapete vermelho com Fátima, como tiveram com o ex-governador Robinson Faria. Mas assim como Faria não recebeu o apoio deles em 2018, Fátima, se existir qualquer possibilidade de ser combatida em 2022, também não receberá.

NARRATIVA SOBRE A PANDEMIA: A HISTÓRIA FARÁ JUSTIÇA A QUEM AGIU COM RESPONSABILIDADE DIANTE DELA

No RN, a única ação que funcionou, ainda que parcialmente, foi o isolamento social contra a pandemia. As fronteiras ficaram escancaradas e a testagem em massa, encontrando doentes e testando seus entornos, não ocorreu. A promessa do ministro da economia, Paulo Guedes, de comprar 40 milhões de testes por mês(!) – o passaporte da imunidade – com um desconhecido, em suas palavras, “amigos inglês” virou piada nacional.

Estados e prefeituras fizeram de tudo pela ampliação dos leitos até o limite do possível, pois desde fevereiro/março já se sabia que nenhum sistema de saúde do mundo seria capaz de abrir vagas suficientes para um coronavírus correndo solto. A falta mundial de insumos (respiradores, EPIs, etc) foi amplamente noticiada. Vimos médicos americanos vestindo sacos de lixo e italianos morrendo por falta de leitos. Num estado pobre como o RN não seria diferente.

Há formadores de opinião hoje jogando a egípcia de pedir mais leitos, como se eles dissessem respeito apenas a um espaço e cama. Além da limitação de equipamentos, esquecendo que milhares de profissionais de saúde foram afastados porque contraíram a doença e este também se apresenta como ente limitador. Na verdade, o discurso visa esconder que jogaram contra a única coisa que comprovadamente funciona: o isolamento social.

É a grande verdade dessa história. Sem perder de vista que Natal tem hoje os piores índices do RN de mortos, já passando indicadores italianos – a cidade representa cerca de 24% do RN e tem quase a metade dos mortos -, foi o isolamento social amplamente comprovado pela ciência que aplacou, em parte, o poder deletério da pandemia. E toda a operação de Álvaro Dias, Bolsonaro e seus apoiadores em Natal vai no caminho de esconder essa verdade.

Em curso agora está o processo de formação da barreira sanitária por parte dos pobres em ônibus e outros espaços fechados. Eles saíram primeiro às ruas e estão contraindo e morrendo pela covid-19. Criarão a janela de proteção para que os ricos, estes os maiores críticos do isolamento, deixem depois as suas casas e retornem aos seus afazeres sem perigo. Mas esta já é outra história.

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