Pensamento mágico, crescimento exponencial e coronavírus: hipótese sobre o sentido da “explosão” diante da pandemia

PENSAMENTO MÁGICO, CRESCIMENTO EXPONENCIAL E CORONAVÍRUS: HIPÓTESE SOBRE O SENTIDO DA “EXPLOSÃO” DIANTE DA PANDEMIA

Um ensinamento chega com a crise. Há sujeitos, mesmo que leitores de jornal, que não vão atrás dos novos conceitos introduzidos para o devido entendimento do assunto tratado.

Exemplo. Os especialistas já falaram dezenas de vezes que o crescimento da pandemia é exponencial. Ainda assim, é possível ler na imprensa local: “a projeção X está errada, pois não temos 400 mortes por dia”.

Além de tratar projeção como sinônimo de previsão oracular, o indivíduo não foi atrás de saber a diferença entre crescimento linear (400 mortes por dia) x crescimento exponencial (grosseiramente: aumento de mortes sendo multiplicado sempre sobre uma base maior de expansão). Ele não procurou compreender, até para explicar aos seus leitores, como a pandemia evolui. Com isso, ficam presos em suas suposições.

Dentro de tal lógica, é interessante notar a ideia de “explosão” para o pensamento mágico diante da pandemia. É algo bastante alastrado, pelo que é possível notar na conversa com quem minimiza a crise e ao ler quem ataca as ações de isolamento social.

Sem entender o crescimento exponencial, o sujeito olha o dado 10 óbitos em 2 semanas e pensa: em 4 semanas teremos 20. Este é um dos raciocínios base, hipotetizo, para olhar as mortes iniciais e imaginar que tudo não passa de exagero. Projeções sobre milhares de mortes soam como pura galhofa ou terrorismo político.

E aí vem a percepção da “explosão”. A categoria representa o susto descritivo mágico diante da multiplicação de notificações e mortes a partir de uma plataforma sempre maior.

Mas antes, diante de uma descrença na ciência, nos especialistas e na imprensa, esse raciocínio aparentemente evidente, mas falso, ganha ar de verdade óbvia. O movimento é semelhante a olhar para a planície da terra e imaginar que ela é plana.

A analogia com outras doenças ou outros acontecimentos reforça o senso comum. Os EUA e a Itália passaram por isso no começo do surgimento dos primeiros casos. Nós estamos passando por aqui também com comparações do tipo: covid mata menos do que acidentes de trânsito ou a violência homicida.

Com o relaxamento do isolamento, a consequência é cruel. Em poucas semanas, a pandemia “explode” e as pessoas falam: “de repente, chegamos a milhares de mortes por dia”. Tudo aparece como algo instantâneo, como uma situação normal em que se perde o controle.

Só que, do ponto de vista objetivo, não aconteceu uma “explosão”. Na verdade, a categoria só aponta para como o agente, sem a lógica do crescimento exponencial incorporada, experimentou e deu sentido a pandemia.

O grande desafio da política de comunicação, se a hipótese estiver correta, é desarmar essa bomba-relógio fundamental para o relaxamento das recomendações feitas pelos especialistas à sociedade.

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