Preocupado em recuperar os votos que deu a Girão em 2018, Kelps adota duas posturas – uma na CPI e outra em canais bolsonaristas; entenda todo o contexto da disputa

O deputado estadual e presidente da CPI da Covid na Assembleia, Kelps Lima (SDD), tem adotado duas posturas, uma para a sua atuação na CPI, e outra quando se comunica em canais bolsonaristas. A estratégica atuação é digna de nota e se insere num contexto mais amplo que merece análise devida.

Na Assembleia, Kelps acompanhou e aprovou a participação do RN no Consórcio Nordeste e foi coordenador da comissão de enfrentamento à pandemia, dando voz a negacionismos locais como o do Sindicato dos Médicos do RN, aquele contrário a abertura de novos leitos públicos, pois os hospitais privados dariam conta, que o calor iria matar o vírus, que cloroquina cura covid, que ivermectina protege e que promoveu um show de grafith na frente do hospital em plena pandemia para comemorar o dia do médico. Por esse espaço da comissão, Kelps e os demais membros deveriam ter acompanhado todos os contratos que agora dizem se preocupar. Relatório? Proposições? Críticas? Zero.

Na CPI, Kelps é mais parcimonioso e cuida de lembrar que não há crime comprovado. No máximo, faz convocações que sabe como advogado que é, que nada gerará de efetivo, além de manchetes despidas de conteúdo concreto. Chamadas como “A CPI da AL convoca Carlos Gabas”, “CPI deve pedir condução coercitiva de prefeito de Araraquara”, “respiradores foram comprados 10 vezes mais caros que o valor de mercado”, “Secretário assinou contrato sem ler” etc são puro suco do mais absoluto vazio se a preocupação for de fato produzir algo na linha da investigação e elucidação de qualquer acontecimento ainda desconhecido.

Isto porque, a CPI não pode convocar autoridades de outros estados e os respiradores não foram comprados a 10 vezes o valor de mercado. Sim, eles foram adquiridos a um valor bem mais elevado do que se praticava antes da pandemia. Mas isto foi um problema mundial em face da alta procura e escassez do insumo. Há farto material jornalístico neste sentido em todas as esferas federativas. O secretário de saúde assinou a adesão à compra sem ler porque, como membro de um consórcio, não cabia a ele fazer tal controle. São verborragias desmilinguidas de objetividade incriminadora e de consequência.

Já nos canais bolsonaristas é outro. Kelps fala ter posse de documentos que irão indiciar todos os governadores do nordeste e que ocorreu malversação de recursos. Sentencia roubalheira. Os papeis objetivamente nunca apareceram. E quem se importa? É público que bolsonarista não é muito ligado em comprovação, fonte, validade da informação. O efeito político já foi atingido. Sim, ele é inteligente e percebeu que para render entre bolsonaristas também não pode falar no RN, mas em toda uma região do Brasil – é o combate à conspiração do consórcio nordeste narrado como uma espécie de organização alicerçada em bases comunistas do antigo Kremlin.

Enquanto Kelps atinge seu objetivo, que é retirar os votos dados pelo seu partido ao General Girão em 2018 para se eleger deputado federal em 2022, aquilo que realmente deveria ser objeto de algum interesse – a pandemia – desaparece. A Assembleia foi um dos palcos do negacionismo estadual com o surgimento do novo coronavírus. Nos acostumamos a assistir e acompanhar a repercussão asssembleiana sobre a milagrosa proteção gerada pela ivermectina, inclusive com dados – falsos, óbvio -, sobre a superioridade do mata piolho diante das vacinas. Foi também de lá que saíram os ataques contra o isolamento e recomendações em pronunciamentos para que as pessoas não seguissem em suas casas, já que o vermífugo protege e a cloroquina cura. Sempre que um deputado falava, outro vinha se solidarizar. Por fim, veio a consagração na forma de audiência pública, contando com especialistas portadores de teses sobre a geração da magnetização pela vacina, defendendo que as pessoas recusassem os imunizantes que produziram o retorno de alguma normalidade e fizeram os óbitos por covid despencarem. Passará em branco o retorno desastrado, em pleno pico de casos em 2020, dos trabalhos físicos na Assembleia naquele prédio caixote hermético perfeito para a propagação do vírus, gerando contágios e óbitos.

Diante dos fatos, a avaliação a ser feita é a seguinte – a CPI da Covid na AL já atingiu seu objetivo parcial, criando um palco para que seus membros – alguns dos quais aparecem, tiram fotos e vão embora – ganhassem espaço entre os eleitores bolsonaristas e antipetistas. A ausência de conteúdo concreto a impede de ir além da bolha para a qual foi destinada. E a essa altura do campeonato, em plena finalização dos trabalhos, tudo indica que não interferirá na disputa majoritária de 2022. Se alguém tivesse alguma coisa, já teria estampado na imprensa hoje preponderantemente bolsonarista do RN.

Passar a limpo o que foi a pandemia no Rio Grande do Norte? Ora, este nunca foi o objetivo, até porque, pelo que aconteceu nas terras de poti, alguns deputados estaduais acabariam se implicando. Além disso, a pandemia ainda não acabou e o Rio Grande do Norte tem enfrentado um debate sobre diversas ações – carnatal, aglomerações, passaporte vacinal, carnaval, falta de testagem do governo federal, falas cotidianas do presidente Jair Bolsonaro contra os imunizantes, potiguares que se recusam a tomar a segunda dose etc. Veja se alguém ali se manifestou sobre qualquer um desses temas. Corrupção? Se combater este problema fosse a meta, os olhos estariam voltados para a CPI da Arena das Dunas. Já dizia o velho sábio estrategista: a melhor defesa é o ataque. E não se mexe em time que está ganhando.

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