Presos foram curados com ivermerctina? Como a ignorância em metodologia científica mantém o mito do vermífugo

Um médico do RN alegou na imprensa que curou 200 presos em Alcaçuz infectados com covid, dando lhes ivermerctina. Trata-se de um caso clássico de como, sem controlar as variáveis, o observador fica a mercê do que “ele quer enxergar”.

Vamos por partes. Primeiro, a taxa de letalidade da covid 19 em pacientes de 0-40 anos – que provavelmente deve ser a faixa de idade dos presos – é de 0,2%, conforme dados da OMS. Ou seja, 99,8% se curam pelo próprio curso natural da doença. Estamos falando em termos populacionais de um óbito a cada grupo de 500 pessoas. Por si só, o simples conhecimento de tal aspecto já esvaziaria a afirmação do profissional. Do ponto de vista da formação da correlação espúria, alguém poderia dizer, da mesma maneira, que deu feijão com arroz e todos se curaram da covid-19.

Além disso, o médico não menciona a estratégia nos presídios de isolamento dos infectados, exame dos doentes e outras ações junto aos custodiados.

Por fim, há outro detalhe nada desprezível. Nos demais presídios do estado, ninguém também morreu de covid e não ocorreu o tratamento com ivermectina. Nos demais casos? Foi o que? Ah, o feijão com arroz.

É assim que um mito também se forma. Ainda que a pesquisa do médico envolva questões éticas, que não ficou claro se foram devidamente encaminhadas, não nego o desejo genuíno do profissional de ajudar. Mas com ignorância e ausência mínima de metodologia para o devido reconhecimento de um acontecimento, transmite-se uma falsa promessa de cura à sociedade, que pode relaxar nas medidas, estas sim comprovadas em suas eficácias.

PADRÃO OURO

Por isso, o padrão ouro de validação da eficácia de um medicamento/tratamento passa por algumas precauções. 1. Escolha representativa de dois grupos. Um receberá o remédio e outro placebo. 2. Nem os pesquisadores, nem os pacientes sabem quem recebeu o que. Desse modo, duplo cego, os desejos e as inferências observacionais dos agentes não interferem na evolução e análise da pesquisa. Por fim, a pesquisa ainda deve ser submetida ao escrutínio de outros pesquisadores – a chamada revisão por pares. Quanto mais relevante e prestigiada for a revista, mais dura será a revisão. Só depois ela será publicada. Quando aplicada tal metodologia, a cloroquina, a ivermerctina, a azitromicina e as vitaminas do chamado kit covid demonstraram ineficácia. Em resumo, quem recebe placebo se cura do mesmo jeito do que quem recebeu o remédio. Daí a afirmação: “ausência de comprovação científica”. Daí a proibição/não recomendação de tais drogas contra o novo coronavírus pelas autoridades sanitárias do Brasil e restante do mundo.

MAU JORNALISMO

Qualquer profissional, com boa formação em qualquer ciência, sabe o que foi dito acima. E, convenhamos, estamos com mais de um ano de pandemia e também não há mais razão para que jornalistas ignorem a necessidade de traduzir esse fazer científico para os seus leitores. Jornais, revistas acadêmicas, divulgadores da ciência estão publicando freneticamente em favor da popularização da boa informação. Isto porque, orientar adequadamente os cidadãos é uma questão de saúde pública.

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