Sobre a fascinante teoria da conspiração em torno da cloroquina e da ivermectina

Não paro de me impressionar com as teorias conspiratórias que “comprovariam” o uso da ivermectina e cloroquina contra covid.

Segundo seus defensores, há interesses econômicos de laboratórios que impedem que o mundo não prescreva os remédios, que seriam eficientes e baratos.

PREJUÍZO MUNDIAL PRA O LUCRO DE UMA EMPRESA

Vamos desenvolver essa ideia. A lógica seria mais ou menos a seguinte. O mundo inteiro entraria em colapso econômico, amargando prejuízos de trilhões apenas para alguns laboratórios aumentarem seus lucros numa proporção que não chega nem aos pés do prejuízo gerado pela pandemia.

Teríamos então o benefício produzido em prol de um punhado de acionistas e um revés compartilhado por milhares de players econômicos globais.

Uma pandemia não apenas traz muito mais prejuízo do que qualquer cura específica pode produzir, como atrapalha muito mais gente.

POLÍTICOS DO MUNDO CONTRA SI PRÓPRIOS E A FAVOR DA PANDEMIA

Mas não pára por aí. A conspiração teria de contar com uma organização global sem nenhum vazamento. Ou seja, prejudicando a si próprios para beneficiar alguns laboratórios numa proporção completamente irracional, a organização mundial de saúde que reúne e monitora pesquisas pelo mundo, todos os países europeus, os EUA, China, Japão; enfim, o mundo inteiro se ferraria só pra esconder que há um remédio barato e eficiente contra covid 19.

O exemplo mais elucidativo é o de Donald Trump nos EUA. Sua reeleição está ameaçada pela incrível quantidade de mortes por Covid em seu país. Lá, tomaram cloroquina feito farinha. Tentaram ivermectina e também não deu certo. Agora, ele pressiona a agência regulatória de saúde pela regulamentação supostamente salvadora do tratamento com plasma. Ele também tenta encurtar os prazos de anúncio de uma vacina para antes do dia da votação.

Certo, por um momento esqueçamos que a cloroquina e a ivermectina foram tentadas – sem sucesso – por lá. Qual o sentido de se ferrar, perder a reeleição para esconder a suposta eficácia de um remédio que mudaria todo o quadro eleitoral daquele país?

OS ESTUDIOSOS DO MUNDO TAMBÉM PARTICIPAM

Os principais especialistas do mundo também fariam parte do complô. Suas pesquisas revisadas por pares, que demonstraram a ineficácia dos remédios, seriam ingrediente dessa conspiração global.

Aí quem tem a resposta verdadeira contra todo o mundo acadêmico, ansiada por economias que estão se esfarelando em face da pandemia e por políticos poderosos que dependem de um remédio que impeça o estrago proporcionado pelo coronavírus? Um médico residente em Natal, que não fez nenhuma pesquisa mas jura que sabe a resposta.

No que ele se baseia? Em números mal explicados de pacientes que, segundo ele, se curaram com ivermectina. O fato de 99% se curar de covid-19 porque a doença segue seu curso e o sistema imunológico atua é por ele ignorado. Ele alega que 95% de quem toma os remédios não morre. Vai ver a perfil epidemiológico traçado por americanos, coreanos e inclusive também por pesquisas brasileiras (MS/Ibope/Ufpel) também fazem parte da conspiração.

POR QUE AS PESSOAS ACREDITAM?

É óbvio que a lógica de uma teoria conspiratória logo é esfacelada pela sua impossibilidade prática. Mas por que as pessoas acreditam?

Primeiro porque serve aos seus desejos. O comportamento acaba sendo derivatório. Isto é, a partir de uma vontade muito grande em prol de uma solução, os sujeitos se agarram em pistas sugeridas pelos seus desejos que levariam a um desfecho racional.

Segundo, a teoria conspiratória confere um sentimento que torna a pessoa especial, algo bastante atrativo na modernidade. No meio de milhares, ele é quem consegue enxergar o que ninguém mais é capaz. Por incrível que pareça, ele tem o ego massageado ao imaginar que está percebendo aquilo que os inferiores/alienados não constataram. Se acha mais inteligente e perspicaz.

Terceiro, a teoria conspiratória acarreta em satisfação pela noção de que o mundo tem controle ou é controlável. Com isso, nossos níveis de ansiedade diminuem. Preferimos inclusive achar que alguém controla o mundo para o mal – alastrar uma pandemia -, do que conviver com a noção de risco anônima.

Os três pontos satisfazem nossas noções de modernidade: unicidade do ser, explicação e controle para tudo. Não são percepções da “idade média”. Quem por aí envereda fica a mercê de todo tipo de manipulação dos seus sentimentos.

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