Sobre a política eleitoral do enfrentamento ao coronavírus no RN: União não existe no RN, o Governo fica com a parte chata de dizer não sobre o fim do isolamento e os prefeitos viabilizam suas reeleições

Um erro de partida em qualquer análise é confundir desejo com realidade. Não adianta imaginar que, pelo fato da gente não gostar de um cenário, ele por si só deixará de ocorrer e forjar consequências. A política continua e isto é um fato, principalmente em ano eleitoral, mesmo com pandemia.

A união, o governo do RN e as prefeituras têm responsabilidades, mas elas não estão sendo igualmente levadas em conta a partir da forma como suas lideranças deveriam se posicionar. O resultado é a completa desarticulação de competências e mais infectados chegando aos hospitais.

O presidente Jair Bolsonaro tem representantes no Rio Grande do Norte. Ocorre que essa bancada não é chamada à responsabilidade quando falamos no combate ao coronavírus. Sequer, por exemplo, foi questionada ou pressionada a agir contra a proibição impostas aos estados por Bolsonaro da criação de barreiras sanitárias nos estados. O aeroporto de São Gonçalo do Amarante, já com o descontrole de casos no mundo, recebeu milhares de italianos sem que Estado e Município pudessem erguer ações de controle. O governo federal proibiu. Como o tempo está voando com a crise, esse dado, de extrema irresponsabilidade, já foi esquecido.

A organização mundial de saúde já deixou claro. Sem testes para rastrear e isolar doentes, sem casos estabilizados, equipamentos de proteção individual, etiqueta de higiene e leitos de suporte, não adianta falar no fim do isolamento. E não cabe aqui reproduzir falsas questões, debates diversionistas. Não há economia com um vírus mortal na rua – quem vai sair para passear e comprar um sapato, podendo ir parar no hospital por isso?!

A posição da bancada de apoio ao governo Bolsonaro é confortável demais. Eles ganham por ser governo – isso pode ser bom se gerar recursos para o RN -, mas não se posicionam sobre as políticas levadas adiante por Bolsonaro. O que a bancada acha da forma como Bolsonaro incita a quebra do isolamento? O que eles pensam a respeito da promessa de Paulo Guedes, ministro da economia, em adquirir 40 milhões de testes em 04 de abril, algo até agora que não ocorreu? Estão lutando por insumos?

Um exemplo concreto. Em plena pandemia, o deputado federal, General Girão, completamente privilegiado por espaços federais no RN, canalizou suas energias para nomear um reitor tampão para comandar o IFRN. A justiça ja derrubou o seu ato e mandou empossar o vencedor da eleição, o professor Arnóbio. O que Girão pode dizer a respeito dos insumos prometidos e não enviados pelo governo federal? O que ele tem feito a respeito? Por que ele não é cobrado por isso? Ele é governo para indicar pessoas, mas não para responder por Bolsonaro por aqui? O governo federal e seus apoiadores não podem ser tratados como antissistema. Eles controlam quase 70% do orçamento nacional e com prerrogativas claras.

Enquanto isso, o governo do RN fica com a parte ruim, a de dizer não diante da pressão com relação ao fim do isolamento. Mas e as condições para flexibilizar o fechamento da economia? Os requisitos devem vir do ministério da saúde, que prometeu testes e respiradores mas não adquiriu. O Governo também se meteu na pitoresca situação de, em plena pandemia, não poder propagandear nada.

Por fim, aparecem os prefeitos, fazendo propaganda no horário nobre da rede globo como realizadores e líderes do combate à pandemia. Afinal, publicidade só não pode ser gasta pelo Estado, União e municípios não têm problema para os (pseudo) críticos.

É diante de tal contexto que uma situação específica se processa. O governo federal parece inexistir no RN, no debate público, o governo do RN é pressionado para afrouxar um isolamento mesmo sem qualquer condição para tanto – para os representantes do setor produtivo acaba sendo mais fácil pressionar o governo a abrir do que unificar a bancada federal para conseguir, por exemplo, testes, pressuposto factual para a flexibilização – e os prefeitos viabilizam suas reeleições.

Criou-se uma correlação de forças no ano eleitoral em que, na prática, viveremos uma pandemia com maiores custos econômicos e vítimas. E, por fim, com a forte probabilidade de flexibilizar o isolamento amanhã e termos de retornar a clausura de nossas casas.

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