Tragédia social: famintos tomam conta da cena urbana natalense

Quem viveu os 90 sabe do que o texto trata. Quem não, está conhecendo agora. Com um detalhe – 20 anos depois de uma evolução gerada pelo pacto constitucional de 1988 em que, aparentemente, o problema tinha sido minimizado.

Era comum naquele momento sua campainha tocar. Do outro lado, a fala: o senhor pode me ajudar com algo para eu comer? Nos restaurantes, o pedinte lhe abordava dizendo: eu posso pegar o resto da sua pizza? Os seguranças de shopping eram orientados a afastar os famintos enquanto os transeuntes faziam suas compras tranquilamente. Ora, não precisa ser um gênio da observação antropológica para perceber que essa situação voltou com toda a sua força.

O resultado da estratégia (sic) de descontinuar as ações de combate à pobreza, que começa em 2016 e se encerra com o fim do bolsa família este ano, chegou.

O novo (velho) cenário tem os seus negacionistas. A moralização da miséria é semelhante à defesa da cloroquina contra covid-19. A tentativa de varrer uma duna de areia para debaixo do tapete. A leitura de comentários em blogs locais, grupos de whatsapp e o ouvido atento às conversas com amigos e familiares permitem o desprazer de ouvir e ler a defesa do uso da polícia, o enquadramento do faminto como alguém perigoso, drogado e vagabundo.

O dado insofismável é que há uma janela de 20 anos dos anos 90 para cá em que torna tudo distinto. O retorno de tal ambiência deixa os mais velhos com o cheiro de mofo da história e os mais novos assustados com a novidade. O fato concreto comum a todos é que não é mais possível lançar mão do alheamento ativo com que se convivia com a cena urbana nos anos 90.

Enquanto isso, quem tem dinheiro compra casas e apartamentos em condomínios fechados, tentando se blindar contra a violência e a desigualdade. Os valores de um lote nessa condição explodem em Natal e na grande Natal, muito acima do mercado imobiliário em geral e da inflação, ainda que galopante. A lei da oferta e da procura expressa a verdadeira reação diante da fome.

A saída individual não vai adiantar. É preciso fazer algo que ultrapasse esta esfera. Há quem acredite em filantropia. Ora, oferecer um prato de comida ou uma cesta básica a quem tem fome é sim uma atitude que importa. Só que não resolve o problema estrutural. Ou são apoiadas e erguidas políticas públicas que ajudem a debelar objetivamente a desigualdade ou todos serão engolidos pela deterioração da sociedade. Claro, nunca esquecendo que quem pode menos acaba sempre pagando mais.

Deixe um Comentário