Uma avenida para o pânico moral

UMA AVENIDA PARA O PÂNICO MORAL
Assim como na exposição chamada de Queermuseu ocorrida em 2017 fortemente contestada por grupos reacionários, o caso do Drauzio Varella, que abraçou uma transsexual no programa Fantástico da globo de domingo, abriu avenida para quem espalha pânico moral como estratégia de legitimação política. Ela se encontra presa por estupro e homicídio. Em nota, Varella lembrou que é médico e não juiz e que exerce seu juramento de profissão há trinta anos junto à população carcerária. A ponderação demonstrada, no entanto, surtirá escasso efeito.
A disputa ideológica na sociedade brasileira funciona pela desconstrução de qualquer tipo de empatia, não pela condenada – não é esse o alvo -, mas por pessoas como Drauzio, um histórico defensor do Sistema Único de Saúde e de políticas mais progressistas. O exemplo deve ser desqualificado para que não seja apropriado.
E não estamos falando nem buscando coerência. A política não funciona necessariamente por esse viés. Jair Bolsonaro, o presidente do Brasil e não um simples médico, já defendeu e elogiou Alfredo Stroessner, ditador que governou o Paraguai por 35 anos. Notório assassino, também fez fortuna ilícita e era conhecido pelos crimes de pedofilia. Pinochet no Chile e a ditadura brasileira no nosso país também não ficavam atrás. Veja: se a gente for seguir a linha estabelecida contra Drauzio Varella, de que ele desrespeitou a vítima ao agir com humanidade, estaríamos diante de um ataque coletivo à memória de nações inteiras.
Mas, como disse, a avaliação não irá por esse caminho. A comunicação será intra-bolha, capturando também alguns para além dela dada a (pseudo) concretude.
A seletividade será justificada de algumas formas complementares. Há aqueles que de fato tiveram acesso ao conteúdo pela Tv, que é um meio mais próximo e visível. Além de aparentemente (apenas aparentemente) distante, os elogios do presidente aos que cometeram crimes contra a humanidade serão matizados pelo revisionismo histórico que relativiza as atrocidades produzidas por ditadores, milicianos, etc. E pela “passada de pano” que justifica Bolsonaro por ele empreender uma cruzada moral de resgate dos supostos valores perdidos e por combater um “inimigo” maior: o PT.
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O Brasil não cresceu como prometido em 2019, a bolsa brasileira despencou e o dolar disparou. O cinto de utilidades moral bolsonarista passará a ser mais utilizado.

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