Violência no RN: uma sociedade incapaz de olhar para o próprio abismo

Após habitar as páginas locais, o tema da violência já sumiu do RN sem deixar qualquer debate sério. A agenda vive de espasmos resultantes de comoções de momento em torno de tragédias, para logo em seguida desaparecer. Resumidamente, esta é a história da escalada da insegurança nas últimas décadas nas terras de poti.

O espantalho dos Direitos Humanos, política que nunca existiu no Rio Grande do Norte – saia do discurso fácil, caro leitor, e se discorda me mostre políticas concretas de longo alcance a respeito de uma grande ação de estado de DH por aqui -, é trazido para esconder que o modelo do mata-esfola é a regra e gerou o nosso mundo. Com isso, quem vive de ganhar dinheiro e negociar poder em torno da demonstração da violência na tv, em rádios e blogs permanece ileso, mesmo com seu falatório diário, sinônimo de lenha na fogueira, prenhe de sugestões para que a justiça com as próprias mãos seja feita.

A narrativa do estado de direito como estorvo é renovada como se fosse uma grande genialidade. Ora, ela é o nosso cotidiano, é a nossa história. Defender “o cancelamento de CPFs” como vara mágica é fechar os olhos para o fato de que foi isto o desenvolvido nas últimas décadas, com o devido agravamento do problema e vitimização de pobres, negros e jovens, conforme nos lembra com recorrência o mapa da violência.

Os operadores da segurança pública do estado são recrutados nos mesmos grupos de sempre (nos quartéis da polícia e do exército), a partir de ideologia semelhante e com o resultado não muito distinto. É assim que um modo de (não) enfrentar o tema também permanece. Eles se revezam entre os comandos da polícia, das secretarias de segurança e dos poderes legislativos. Quando no poder aplicam a fórmula do fracasso. Na oposição, se legitimam com o histrionismo de moeda semelhante.

O que nunca foi implementado é pintado como grande empecilho e o fracasso da violência como resposta, uma velharia institucional da consciência coletiva local, é escamoteado e estabelecido como o meio nunca antes tentado. Convivemos pacificamente com histórias de grupos de extermínio – até idealizamos no imaginário o “mão branca” -, abordagens em que se bate primeiro e pergunta-se depois. Na última ação listada, você ouvirá (ou falará): “se levou uma mãozada da polícia, boa coisa não estava fazendo”.

O clamor para que execuções não sejam investigadas sustentam a inércia. Crimes contra minorias despidas de direitos geram o desfecho trágico. Por serem uma denúncia objetiva contra o status quo, qualquer um que chame atenção para o cenário é logo enquadrado como aproveitador ideológico. A máxima cole no seu opositor aquilo que você faz é a linha.

Na predação capilarizada, quem goza de maior poder de influência captura o braço armado do estado para a sua proteção e/ou paga por segurança privada, ilhando-se em condomínios cada vez mais caros pilares de uma cidade segregada, sem a garantia de que, até tais cidadãos, também não venham a ser alcançados por práticas criminosas. A maioria vive, no entanto, na selva e acaba sendo vítima da solução que, não raro, apoia.

Não cabe falar especificamente de governo A, B ou C. Apesar de pouco publicizados pela imprensa, os números acerca do desempenho de cada um estão em bancos de dados públicos bem catalogados. O que vale enfatizar é que trata-se de uma operação social e política em que não são investigadas as estatísticas, projetos, quais são os perfis das vítimas e da criminalidade, os porquês da violência, recursos empregados, quem pode e deve ser responsabilizado, o que deu certo e o que não deu no decorrer do desenrolar do pequeno elefante alojado no mapa brasileiro. Enfim, é a roda que gira a caminhada de uma sociedade autoritária, desigual, cansada dos inegáveis desdobramentos que levam vidas e ceifam futuros, mas incapaz de olhar para o seu próprio abismo.

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