A médica Roberta Lacerda foi recém apresentada ao jornalismo e não gostou

O ATAQUE E A REAÇÃO

Uma publicação da médica Roberta Lacerda em seu instagram, atacando jornalistas, rendeu uma polêmica nos últimos dias na taba. Conforme a profissional de saúde, jornalistas querem ser médicos, ainda que não tenham estudado tanto quanto, mintam mais e sejam mais caros.

Do Instagram da médica Roberta Lacerda

É irônico que somente agora os jornalistas tenham se levantado contra a médica, que passou meses defendendo tratamentos e medicações rechaçadas por autoridades sanitárias nacionais e internacionais (OMS, FDA, Anvisa, Agência de Saúde Europeia, etc) e pelos principais periódicos acadêmicos da área médica do mundo (Jama, Nature e The Lancet). Infelizmente, pesou mais o ressentimento e o complexo de inferioridade que ela mobilizou contra quem tem formação na área de ciências humanas, do que sua prática sem pé na realidade em plena situação de calamidade de saúde pública. Sua comparação nada diz para quem é bem resolvido e sabe que seu ataque demonstra, na verdade, um sentimento de quem se encontra acuada e parte para o diversionismo.

Para não ir muito longe, em entrevista recente concedida a uma rádio de Natal, defendeu o uso de cloroquina nebulizada contra covid, um tratamento condenado pelo conselho federal de farmácia e pela sociedade de pneumologia e que gerou mortes de pacientes (leia aqui). E ainda culpou a imprensa por, segundo ela, criminalizar a ação.

Mas para compreender como uma médica sem carreira acadêmica, sem pesquisa alguma e com poucos anos de formação desponta como suposta liderança do setor em Natal, atingindo agora outros públicos, é preciso voltar no tempo. Já adianto meu argumento: a profissional foi erguida pelo mau jornalismo praticado durante a pandemia no RN, sem o qual ela teria continuado no caminho soberano do anonimato.

UM POUCO DE CONTEXTO

Essa história começa em Maio de 2020. O Sindicato dos Médicos do RN pressiona pela abertura do comércio, juntamente com associações comerciais, lançando a saída: se a gente aplicar a cloroquina em pacientes com covid, eles não chegarão mais até a UTI. Em seguida, o Conselho Regional de Medicina do RN lança a recomendação 04/2020, que ainda que fale em autonomia médica e consentimento do paciente, sugere o enfrentamento da pandemia com o uso de cloroquina, ivermectina e azitromicina (documento aqui).

A recomendação do CRM/RN nunca foi cancelada e segue em vigor até hoje, apesar de conter em sua bibliografia para sustentar o uso dos fármacos trabalhos do inventor do tratamento com cloroquina e azitromicina contra covid, o médico francês Didier Raoult. Seus estudos já caíram por erros reconhecidos pelo próprio (leia aqui) e pesquisas randomizadas veiculadas na Nature e The Lancert surgiram, demonstrando que a cloroquina é inficaz contra covid. O texto do CRM/RN, no entanto, permanece.

No caso da ivermectina, o CRM defende o remédio a partir da pesquisa in vitro feita na Austrália, ainda que os próprios pesquisadores tenham enfatizado que não seja possível tirar conclusões disso. Recentemente, estudo randomizado foi veiculado no jornal médico Jama, demonstrando que a ivermectina é ineficaz contra covid. Agências de saúde do Brasil e do mundo são contrárias ao uso do vermífugo contra o novo coronavírus e alertam para os riscos. A prefeitura do Natal alega, inclusive, que sua distribuição de cloroquina e ivermectina está amparada pela recomendação do CRM/RN (leia aqui).

A tragédia gerada por essa solução sem pé na ciência é conhecida. Os números não diminuíram. Pelo contrário: alvancaram e tivemos o pico da primeira onda entre os meses de junho e julho. A sensação de falsa proteção que a profilaxia com ivermectina gera tem sido reconhecida como fator importante para levar pessoas a contrair covid-19 (leia aqui). A base de pesquisa LAIS/UFRN mostrou que a maior parte dos pacientes graves internados no RN fez uso de tratamento profilático com ivermectina (leia aqui).

Ainda assim, a farsa serviu como discurso eleitoral para o prefeito Álvaro Dias em busca da reeleição. Sabendo aproveitar a ansiedade da população por um remédio e por uma proteção, alinhou a distribuição de ivermectina, com a busca de eleitores para o seu projeto e a solução para o comércio e representantes da classe médica que queriam abrir tudo. O clientelismo com remédio o catapultou para uma vitória em primeiro turno. A imprensa ligada a ele apoiou firmemente a medida. Todos estão enredados na operação.

UMA JANELA DE OPORTUNIDADE: SAEM MÉDICOS RENOMADOS, SURGEM MÉDICOS IVERMECTINERS

E é aí que médicos locais começam a se destacar. Ajudando a montar a operação ivermectina do prefeito de Natal, profissionais de saúde renomados, pesquisadores com sólidas carreiras acadêmicas e de militância na área desapareceram da cena pública e médicos com uma pegada influencer surgiram. Por exemplo, até então, o professor da UFRN, o Dr. Kleber Luz, era presença constante em debates acadêmicos e na imprensa. Mas foi desaparecido da mídia quando fez duras críticas ao uso de medicamentos sem eficácia comprovada em uma audiência pública na assembleia legislativa do RN (leia aqui) e depois em nota técnica organizada pelo departamento de infectologia da UFRN.

A imprensa local passou a bombardear a população de Natal com entrevistas e declarações de médicos defensores da ivermectina contra covid-19. Era um verdadeiro massacre de opinião e, principalmente, contra qualquer contraditório. Em qualquer aparição, elogios carentes de base curricular, ataques contra quem dissesse que a coisa não era bem assim e microfones abertos para todo tipo de ilação, teorias conspiratórias e afirmação de que ivermectina e cloroquina funcionavam. Natal seria um exemplo de sucesso para o mundo, ainda que, na prática, tivesse os piores números do RN. Apesar de ocorrer justamente o contrário, críticos da ivermectina contra covid-19 viraram defensores da morte.

A médica Roberta Lacerda aparece dentro desse contexto. Com retórica forte e citando muitos dados e estudos, nunca questionados ou apurados, soube fazer seu nome. Como outros da mesma linha, a profissional ia para entrevistas e recebia tapete vermelho. Citava “estudos” de sites não aceitos pela comunidade acadêmica e ninguém contraditava. Falava sobre casos de fracasso e de sucesso falsos e era aplaudida (leia aqui). Na mesma medida em que as agências de saúde do Brasil e do mundo passaram a condenar o uso da ivermectina e da cloroquina contra covid-19, pelas pesquisas que já haviam avançado para demonstrar a ineficácia de tais medicamentos, ela elevava o tom, falando sobre uma suposta conspiração mundial para vender vacinas e desacreditar remédios baratos. Sempre recebeu das bancadas um endosso completamente desprovido de racionalidade. A médica nunca foi devidamente escrutinada por um jornalismo fincado nos fatos e se acostumou.

A OPERAÇÃO IVERMECTINA TORNA-SE INSUSTENTÁVEL

Mas a eleição de Álvaro passou e a avalanche nacional e internacional de estudos, comunicados, pareceres de cientistas, agências e revistas de prestígio, fabricantes, veiculados mais pela imprensa nacional do que local, tornou a operação ivermectina insustentável. Já faz muito tempo que não há mais dois lados nessa história. Para a existência de duas versões legítimas, são necessárias fontes que sustentem dois pontos de vista e não há mais. É o mundo contra um grupo de médicos que se enclausurou na defesa de um tratamento ineficaz.

A médica e outros têm agora a árdua missão de enfrentar o bom jornalismo e foi essa apresentação que tem feito ela e os profissionais de seu grupo partirem para o ataque. E como é mais difícil deslegtimar agências de saúde, cientistas e revistas acadêmicas prestigiosas, resolveram culpar o carteiro, ou seja, quem leva a notícia. Daí a linha, que não é apenas dela, mas se banalizou entre profissionais de saúde ainda defensores de cloroquina, ivermectina, etc, contra covid-19 – apelar para a autoridade médica – um conto para leigos – e para essa falsa ideia de que jornalistas querem clinicar. O dado concreto – ela e outros perderam essa batalha, só restando essa saída.

O FUTURO

As movimentações da profissional se assemelham muito a do senador Styvenson Valentim. Famoso pela liderança da operação lei seca, teve todo o espaço possível na imprensa para mostrar seu trabalho. Depois que fez o nome, passou a atacar e a cuspir no próprio prato que o alimentou, tecendo um tipo de ligação direta com agora seus eleitores pelas suas redes sociais.

A médica Roberta Lacerda não depende mais da imprensa local que a produziu. A operação ivermectina em Natal já lhe deu o empurrão necessário para tanto. É presença constante em canais nacionais de políticos e influencers de extrema direita, montou um canal no youtube e, com a fama repentina, passou a ministrar cursos patrocinados por cadeias de farmácias ou em espaços de defensores do tratamento precoce pelo país e lá fora, levando o sucesso (sic) da ivermectina e outros remédios em Natal. Não será de admirar que siga pelo mesmo percurso do ex-capitão.

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