Algo não bate: divulgação de óbitos por Covid-19 no RN anda na casa das unidades, mas o cumulativo no âmbito das dezenas

O protocolo da Organização Mundial de Saúde estabelece que as mortes anunciadas durante a pandemia no boletim diário sejam todas as que foram confirmadas, desculpa a redundância, naquele dia e não apenas as que ocorreram nas últimas 24 horas.

Qual é a razão? Ora, porque ninguém vai voltar a notícia de dois dias atrás e refazer o título e dizer: naquele dia não morreram 10, mas 15.

Alguns exames demoram. Às vezes, dias ou semanas. Então, na atualização diária devem sair todos os óbitos confirmados. Se não, aquela pessoa que morreu há três dias, mas só foi efetivada para coronavírus agora, fica na prática esquecida.

Jair Bolsonaro tentou alterar a lógica de divulgação, mas voltou atrás depois que recebeu diversas críticas dos especialistas. Porém, no RN estão seguindo o que não é recomendado e o que o presidente quis fazer e voltou atrás. As mortes com mais de 24 horas, mas recém confirmadas, não estão entrando no boletim diário. Trata-se de um confronto contra o que determinada a organização mundial de saúde e vem sendo seguido no país e fora dele.

Fica uma coisa estranha: o dado cumulativo anda de 20 em 20, de 30 em 30. Exemplo: ontem eram 1900, hoje 1930. Porém, o anúncio é feito nas “últimas 24 horas”. Então, como dificilmente quem morre no dia tem a confirmação naquele mesmo momento para covid-19, o óbito fica no cumulativo passado.

Em resumo, são anunciadas 2 ou 3 mortes nas “últimas 24 horas”, mas o acumulado anda de dezena em dezena. Como as pessoas só olham o “boletim do dia”, acham que está tudo quase normal. Não se sabe ao certo quem anda anunciando assim. Se a informação vem dos órgãos oficiais de tal forma ou se é editado pela imprensa.

Vou citar um exemplo:

No dia 05 de Agosto de 2020, a tribuna do norte fez o seguinte título: “RN chega a 1932 mortes em decorrência da covid-19, http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/rn-chega-a-1-932-mortes-em-decorra-ncia-da-covid-19/486552

Já no dia 06 de Agosto de 2020, hoje, o título é: “RN soma trÊs novas mortes por Covid-19; estado teve 1954 óbitos, http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/rn-soma-3-novas-mortes-por-covid-19-estado-teve-1-954-a-bitos/486645

Basta ler os títulos e os textos para perceber que cria-se uma sensação de normalidade diária que não bate com o acumulado demonstrado, conforme foi dito na argumentação acima. São 22 mortes a mais de um dia para o outro, mas no “diário” só foram 3.

Sim, é óbvio que melhorou e que já é possível abrir comércio e outras atividades. Já há todas as condições técnicas – ocupação de leitos, taxa de transmissão e projeções matemáticas epidemiológicas – para a superação do isolamento social. Ninguém está aqui dizendo o contrário. Porém, o evidente também é que isto transmite falsa sensação de normalidade e um cenário mais positivo do que de fato temos da pandemia no RN. Daí que, quando vemos aglomeração nas ruas e as pessoas não utilizando máscaras, ficamos sem entender o porquê. Ora, os indivíduos estão amparando suas práticas nas informações que recebem.

Quem quer a manutenção da abertura da economia, sem qualquer involução, não pode compactuar com a não apresentação real do cenário para a sociedade. Porque, quando as pessoas acham que a pandemia já foi superada, elas tendem a relaxar no distanciamento físico e na utilização de máscara.

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