Atacando o principal fornecedor de vacinas para o Brasil, Bolsonaro insinua que China pode ter criado coronavírus e fala em “guerra bacteriológica”

Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto

© Reuters Presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto

BRASÍLIA (Reuters) – Em um discurso exaltado e sem citar nominalmente a China, o presidente Jair Bolsonaro insinuou nesta quarta-feira que o novo coronavírus pode ter sido criado pelo país asiático como parte de uma bacteriológica, em mais um episódio que tem potencial de gerar atrito com o principal fornecedor de insumos para vacinas do Brasil.

“É um vírus novo, ninguém sabe se nasceu em um laboratório ou nasceu por algum ser humano ingerir um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é uma guerra química bacteriológica e radiológica. Será que estamos enfrentando uma nova guerra? Qual país que mais cresceu seu PIB? Não vou dizer para vocês.”, afirmou.

Apesar de Bolsonaro não ter citado diretamente o país asiático, a China foi o único país que teve um aumento do Produto Interno Bruto em 2020, de 2,3%. O novo coronavírus foi detectado primeiro na província chinesa de Wuhan, ainda em dezembro de 2019, mas o país também foi o primeiro a controlá-la com medidas muito duras de lockdown.

Também não há qualquer evidência de que o novo coronavírus tenha surgido de alguma experiência mal-sucedida ou criado propositadamente pela China ou qualquer um outro país em laboratório. Depois de uma investigação, a Organização Mundial de Saúde (OMS) concluiu que a hipótese mais provável é que a origem do vírus seja em morcegos e que tenha chegado a humanos passando por outro animal.

A possibilidade de que o coronavírus tenha escapado do laboratório de virologia de Wuhan não foi descartada, mas a hipótese foi considerada altamente improvável.

Essa não é a primeira vez que Bolsonaro –ou seus filhos ou membros do governo– fazem acusações sem provas ao governo chinês, seja pela Covid-19, seja por questões relativas à tecnologia de comunicação 5G.

No ano passado, em meio a disputa com o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), Bolsonaro questionou a qualidade da vacina chinesa CoronaVac, do laboratório Sinovac e envasada no Brasil pelo Instituto Butantan, vinculado ao governo paulista.

Seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) passou a chamar o coronavírus de “vírus chinês” nas redes sociais, imitando a postura do ex-presidente norte-americano Donald Trump, e acusou o governo da China de querer espionar o mundo através da venda de equipamentos para rede de comunicações 5G.

Principal parceiro comercial do Brasil, a China também fornece o insumo farmacêutico ativo (IFA) necessário para o envase da CoronaVac, vacina que responde por 75,9% das doses de vacinas contra Covid-19 no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, e também para o envase da vacina da AstraZeneca pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), responsável pelo restante das imunizações do país até agora.

Em seu discurso, Bolsonaro também mostrou irritação com a CPI da Covid, reclamou que os senadores pediram registros de onde ele estava nos últimos 50 finais de semana –o presidente tem saído para circular, sem máscara e causando aglomerações, para visitar a periferia de Brasília– e chamou de canalhas aqueles que falam contra o chamado “tratamento precoce” contra a Covid-19 defendido por ele, com uso de medicamentos sem eficácia.

“Canalha é aquele que é contra o tratamento precoce e não apresenta alternativa”, disse.

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