Líder de bancada da bala afirma que Bolsonaro corre risco

Líder de bancada da bala afirma que Bolsonaro corre risco

Valor Econômico – 06/05/2019

Presidente da Frente Parlamentar da Segurança Pública, a segunda maior bancada do Congresso e uma das principais bases de sustentação do governo, o deputado capitão Augusto Rosa (PR-SP) afirma que a relação com os parlamentares está tão ruim que, se a economia desandar, há risco real de um impeachment do presidente Jair Bolsonaro. “É triste uma luta tão grande para a direita assumir o poder e ver esfacelando a nossa imagem”, diz.

Segundo o parlamentar, Bolsonaro tinha a relação com o Congresso como calcanhar de Aquiles, mas ignorou o problema e assiste a repetição do filme que levou ao afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff. O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), “muito elogiado na Câmara”, segundo o capitão, tem conversado longamente com os parlamentares e se interessou bastante por um perfil dos 513 deputados elaborado por Rosa na forma de um jogo de cartas – um “super trunfo” – para influenciar nas votações.

O presidente da “bancada da bala” é policial militar da reserva e está no segundo mandato como deputado. Com pouco mais de 100 dias de governo, ele defende mudar toda a articulação política, reclama do “chá de cadeira” dado até pelo quarto escalão e vê um rompimento irreversível com os partidos. Conta que tentou por 50 dias alertar o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Sem sucesso, renunciou à vice-liderança do governo na Câmara. Leia, a seguir, a entrevista ao Valor realizada na terça-feira:

Valor: Por que o senhor renunciou à vice-liderança do governo?

Capitão Augusto Rosa: Fui o primeiro deputado a subir na tribuna para defender o apoio à eleição do Bolsonaro, contra o meu partido, que perdi a chance de presidir por causa disso. Tentei contribuir, mas se estou vendo que não consigo porque não escutam, melhor sair fora. Está péssimo o relacionamento. Muito, muito ruim. De cada 10 deputados, oito reclamam e dois ficam quietinhos. Ninguém defende o governo.

Valor: O que o senhor sugeriu?

Rosa: A estrutura política está completamente errada. O Bolsonaro sempre teve péssimo relacionamento na Casa. Nunca foi de dialogar, de ter grupos, de relatar projetos, convencer os outros. Na última vez que tentou a eleição para a presidência teve quatro votos. Eu e mais três. Se o tendão de Aquiles é o Legislativo, o ministério mais forte deveria ser o de Relações Institucionais para compensar. Qual a primeira coisa que ele faz? Extinguiu o ministério que possibilitaria aprovar os projetos do Paulo Guedes, do Moro e por aí vai.

Valor: Mas as funções foram incorporadas pela Casa Civil.

Rosa: Um erro tremendo. A Casa Civil não tem tempo para o corpo a corpo. Para piorar, o Onyx [Lorenzoni] tem rusgas com os deputados, falam que ele não cumpriu os acordos nas 10 Medidas [de Combate à Corrupção]. Criaram a Secretaria de Governo porque viram que não ia dar certo, mas colocaram o general Santos Cruz, um cara com relacionamento muito
difícil, você não vê ele nem sorrir. Os deputados não vão lá e ele nunca ligou para conversar, e isso porque sou presidente da frente da segurança, vice-líder do governo, vice-líder do PR.

Valor: Os líderes no Congresso não ajudam nessa interlocução?

Rosa: Colocaram como líder do PSL, o partido do presidente, o delegado Waldir. Deus do céu. Ele é meu amigo, mas é um cara caricato, briguento. O líder do governo na Câmara, que é uma função que você dá para outro partido em troca de apoio, é do PSL, o Vitor Hugo, que não foi aceito. Quando o líder do governo chega numa sala, o pessoal vai cumprimentar. Com ele não estão nem aí. Deveria ser trocado. A cereja do bolo é a [líder do governo no Congresso] Joice [Hasselmann] que, além de ser do PSL, é muito estrela, não tem tempo para fazer o corpo a corpo.

Valor: Mas isso afeta a relação?

Rosa: O governo não entende que o regime é presidencialista, mas a Constituição é parlamentarista. Para aprovar os projetos depende do Congresso. Os ministros dão chá de banco nos deputados, não atendem. Eu posso trocar WhatsApp com Bolsonaro, Moro e Onyx, mas prefiro fazer como todos os deputados, por ofícios. Mandei um para o Onyx para conversar sobre os problemas. Ficou 50 dias sem resposta. Decidi deixar a vice-liderança do governo e mandei uma mensagem para ele, por consideração. O Onyx falou para nos encontrarmos no dia seguinte. Cheguei e não estava marcado. Espera, espera, espera. Deu uns 45 minutos e outras pessoas, que não são parlamentares, passando na frente. Se fossem parlamentares eu até entendia. Se a reforma da Previdência é a prioridade do governo, os parlamentares são a prioridade.

Valor: Não é fato isolado?

Rosa: Se fosse já era problema, mas ocorre até com o terceiro e quarto escalões. Tem 180 militares no governo. Militar sempre tem hierarquia, está acostumado a cumprir ou dar ordem, não a negociar. Ouvi de alguém muito importante nos bastidores que o Bolsonaro confundiu e achou que foi eleito dono do Brasil. Quando você é dono, você manda, mas quando você é presidente você comanda, compartilha o poder com os outros para se sentirem parte do governo.

Valor: Não é o toma-lá-dá-cá?

Rosa: Misturaram isso com a nova e velha política. O que existe é boa ou má política. A boa política é feita de forma republicana, sem interesse pessoal, sem carguinho para parente, sem querer meter a mão. Isso o governo está fazendo e todo mundo aceita. É só estabelecer critérios para as indicações, dizer: quero pessoas qualificadas, honestas e vai passar pelo meu crivo. Hoje as pessoas não se sentem governo, por isso o PSL está sozinho na base.

Ou vai pelo amor, ou vai pela dor, e o governo federal verá da pior forma o deterioramento da relação com o Congresso

Valor: Qual o reflexo nas votações? Há risco para a Previdência?

Rosa: Sangraram até na Comissão de Constituição e Justiça para aprovar a reforma. Se não fosse o [presidente da Câmara] Rodrigo Maia, nem tinha passado. Há mais de um mês avisei: o comentário geral é que não interessa para ninguém o paciente morrer, ninguém ganha dinheiro em terra arrasada, mas o governo quer R$ 1,2 trilhão [de economia] para o paciente virar triatleta e o pessoal não quer porque acha que o governo não merece. Ficará uns R$ 300/400 bilhões porque assim o paciente sai da maca, mas não ganha fôlego. O Paulo Guedes falou que, se passar R$ 400 bilhões, sobrevivemos a esse mandato, mas terá problema lá na frente. Será uma minirreforma.

Valor: Vê alguma saída?

Rosa: O que poderia melhorar a situação seria o Bolsonaro encampar o que a gente falava na pré-campanha: acabar com a reeleição. Acho que ajudaria. Saciaria um pouco a oposição saber que ele não viria para a reeleição, poderiam apoiar para plantar agora e colher lá na frente.

Valor: Quais emendas a bancada da bala defenderá na reforma?

Rosa: Que os guardas municipais e polícia técnico-científica sejam enquadrados junto com as demais polícias, com mesmas regras. Não tenho nem ideia de qual o impacto [orçamentário], a gente vai brigar por direitos. Se falar que será de R$ 300 bilhões, aí temos que ver, mas nunca nos chamaram para reunião sobre isso. Nem o Bolsonaro, nem Onyx.

Valor: Como essa falta de diálogo afeta o governo?

Rosa: Para você ver que o governo não está interessado na verdade. Já que não falei pessoalmente com o Onyx sobre os motivos da minha renúncia, achava que iam me ligar depois, ou ele ou o Bolsonaro, para conversar. Não ligaram. Ou vai pelo amor ou pela dor e, infelizmente, o governo verá da pior forma o deterioramento na relação com o Congresso.

Valor: Como assim?

Rosa: Já deram vários recados. Votaram projetos [contra o governo], não tem um partido coligado, a reforma passou sangrando. O Bolsonaro recebeu todos os partidos e as três bancadas – boi, bala e bíblia – e ninguém declarou apoio a reforma. Precisa de mais indicativo? Na transição, fui na casa dele e disse que não importa como a gente entra, mas como saímos. O Collor entrou ovacionado e saiu vaiado. A Dilma foi reeleita e saiu daquele jeito.

Valor: Tem risco de ele não terminar o mandato?

Rosa: Tem

Valor: Qual o nível desse risco?

Rosa: Gosto de estudar política. Na época da Dilma, fiz um diário com o escalonamento dos sinais de insatisfação. Um: A base aliada parou de defender o governo. Hoje, tirando dois ou três gatos pingados, ninguém sobe na tribuna. Nas rodinhas [de deputados] também não importa se tem gente do PSL, o cara senta o pau e ninguém, nem o do PSL, defende. Dois: O pessoal fala mal publicamente, reclama nos grupos de Whatsapp, até nos que o Eduardo Bolsonaro [filho do presidente e deputado] participa.

Valor: Não é normal criticarem o governo nesses ambientes?

Rosa: O pessoal costuma se preservar porque sempre precisa de algo do governo, ser atendido por ministro, liberar emenda. Quando chega nisso de mandar [o governo] “tomar banho” é grave. Depois começam a votar projetos menos relevantes para dar umas pauladas e, se não tem resultado, derrotam ou adiam os projetos mais relevantes.

Valor: Como a reforma.

Rosa: Para ver onde já estamos. O governo oferece cargos e o pessoal não quer. Não estão oferecendo, mas vários partidos falaram que não aceitarão. Por último, o pessoal se recusa a participar de eventos do governo. Só olhar a participação do Bolsonaro na Agrishow [feira da agropecuária]. A Dilma e o [Michel] Temer levavam uns 20 deputados junto, iam no avião presidencial para prestigiar. Só vi um deputado na foto com o Bolsonaro.

Valor: A situação é crítica?

Rosa: É o retrato da Dilma, parece um filme repetindo. O governo tem que agir rápido, mas infelizmente acho que o Bolsonaro não tem ideia do que está se passando. É triste ver uma luta tão grande para a direita assumir o poder e ver esfacelando, segundo as pesquisas, a nossa imagem.

Valor: Ele aposta em jogar a opinião pública contra o Congresso?

Rosa: Talvez, mas não funciona. O Congresso está aguardando, cozinhando o galo, como se diz no interior. Sabem que não é hora de brigar porque ele ainda está fortalecido, tem popularidade, mas que tende a diminuir se a economia não for bem. Minha avó dizia: quando o problema financeiro entra pela porta, o amor sai pela janela. Se o cara perde emprego, a gasolina sobe, o humor muda.

Valor: É isso o que falta para o impeachment, a economia parar?

Rosa: Se a situação econômica estivesse boa com a Dilma, o Congresso não conseguiria tira-la. O bombeiro fala que o ambiente está gasado, falta só a faísca para explodir. Ambiente gasado tem insatisfação política e insatisfação popular. A insatisfação política já está instalada, a olhos vistos. E se você juntar com a insatisfação popular, só falta uma faísca [estala os dedos].

Valor: Mas o Mourão assume?

Rosa: O Mourão assume sim.

Valor: Acha um bom nome?

Rosa: Gosto dele. Gosto do Bolsonaro e do Mourão, os dois são amigos né. Os dois são ótimos.

Valor: Já foram amigos, né, a relação não está das melhores.

Rosa: Eu até ia conversar com o Mourão hoje porque pedi para ele receber um prefeito, mas era na hora do voo. O pessoal na Câmara elogia muito ele. Está numa função mais tranquila, não precisa ficar decidindo, não é vidraça. E tem tempo, os deputados vão lá [e ficam conversando]. Fui mostrar meu livro, eram 15 minutinhos e fiquei 1h30 batendo-papo sobre política. Ele ficou muito interessado no meu super trunfo.

Valor: O que é isso?

Rosa: É um baralho que uso para aprovar projetos. No primeiro mandato aprovei emenda à Constituição e a lei que salvou os rodeios. Fiz um perfil dos 513 deputados e atribui pontuação para cada um, o quanto têm de prestígio, o quanto influencia os votos e a mídia. Se preciso de apelo popular, vou atrás de quem tem mídia. Se preciso votos no plenário, vou atrás de alguém influente. De 513, uns 30 que influenciam o voto mesmo. Não precisa ficar conversando com quem não influencia.

Valor: O Bolsonaro viu?

Rosa: Quem se interessou foi o Mourão. Quer que eu explique o passo a passo. Toda semana converso com 50 deputados diferentes. Sento no cafezinho e quero saber o que estão achando. Levei isso ao governo, mas parece que não estão interessados.

Valor: Esse sentimento é do senhor ou da bancada da bala?

Rosa: Não é opinião pessoal, é o sentimento geral da Casa. Estou com o Bolsonaro até o fim. Se tiver impeachment, eu voto contra, subo, defendo, brigo, uso meu super trunfo. Se afundar o barco, afundo junto. Mas vocês estão ouvindo alguma coisa diferente do que estou falando?

Valor: Vê sinais de que o governo está percebendo isso e vai mudar?

Rosa: Os partidos não quererem mais participar do governo não dá para reverter, só minimizar. Era algo normal compor o governo distribuindo cargos aos partidos. Como presidente da frente, eu queria ter indicado o secretário de segurança nacional [Senasp]. O interesse é escuso? Não, é a nossa bandeira. Se tenho um cara lá afinado comigo, é mais fácil articular.

Valor: O governo não ofertou, mas se oferecer eles aceitam.

Rosa: Demonizou tanto que partido nenhum é louco de pegar ministério ou cargo. Vão falar que estavam na oposição porque não tinham cargos e chamar de prostituta, que se vende em troca de cargos. Quem é louco de aceitar isso? Com 100 dias, já se tornou irreversível.

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