No RN, o direito à vida vale o mesmo do que ingerir bebidas alcoólicas em bares e restaurantes; na equivalência, sabemos quem sairá perdendo

O governo do RN entrou com uma liminar junto ao Tribunal de Justiça, para que o seu decreto seja respeitado em detrimento do lançado pelo prefeito de Natal, Álvaro Dias. Dias – sempre ele – quer liberar a venda de bebidas alcoólicas e o fim do toque de recolher integral aos domingos. Não é possível dizer que o novo decreto estadual se constitua como severo. Mas o prefeito procura se alinhar com o bolsonarismo natalense e sempre aposta na saída sem respaldo na ciência. Por isso, tem os piores números da pandemia nas terras de poti.

O desembargador Cláudio Santos acatou parcialmente o pedido do governo do RN. Porém, liberou a comercialização de bebidas alcoólicas em bares e restaurantes.

Decisão judicial se cumpre, mas numa democracia é possível debater seu conteúdo. Sobre o assunto, o Supremo Tribunal Federal já decidiu que, em divergência de decretos, deve vigorar o mais restritivo na prevenção à covid-19 e a justiça estadual – não só do RN, mas de outros estados – também (leia aqui e aqui). Porém, o magistrado local acha que não e foi por outro entendimento. O direito à vida foi colocado em pé de igualdade com o de vender bebidas alcoólicas em espaços públicos, sob a alegação de que o trabalho também é igualmente fundamental.

E agora me diga, caro leitor – como é possível beber até às 22 horas, em um ambiente compartilhado, seguindo todos os protocolos sanitários? É óbvio que essa peça de ficção gerará contágio. Na prática, ainda que vida e trabalho tenham sido equiparados, a vida sairá perdendo.

Os hospitais do RN ainda estão com 90% de ocupação de seus leitos. Nem de longe trata-se de uma situação tranquila. Especialistas têm alertado que, com o fim da vacinação dos grupos prioritários prevista para ocorrer apenas em setembro, conforme o próprio ministro da saúde Marcelo Queiroga declarou esta semana, a abertura descontrolada pode produzir repique.

É o drama dessa pandemia. Primeiro o governo federal não ajuda financeiramente às empresas. Depois, o próprio mercado não age com inteligência, dado o desespero – compreensível – de curto prazo. Aí, após o pequeno arrefecimento da curva, tudo é aberto e, já já, os hospitais se entopem de novo de doentes, sem os devidos responsáveis aparecerem para responder pela operação, claro.

Imagine, caro leitor. Depois que essa pandemia passar os nossos filhos e netos nos perguntarão: o que vocês estavam debatendo com 3 mil mortes/dia no Brasil e 30, 40 no RN? Com o que se preocupavam? E a gente tiver de responder – com a venda de bebidas alcoólicas em bares e restaurantes?!

Deixe um Comentário