O Ibope e o Datafolha erraram ou é você que cobra o que os Institutos não são capazes de produzir?

O segundo turno pelo país foi marcado pela distância entre o que as pesquisas diziam e o que saiu das urnas, razão suficiente para caírem de pau nos institutos.

Alguns pontos. É fato que a distância foi maior do que a margem de erro. Alguns exemplos: Fortaleza, Recife e São Paulo.

Mas ou você acredita que os técnicos do datafolha e ibope não sabem fazer pesquisa, os donos dos institutos mexeram deliberadamente nos resultados em prejuízo de suas próprias marcas ou procurará razões técnicas e eleitorais para entender a discrepância.

Como este modesto blogueiro não é dado a teorias da conspiração, prefere ir atrás do que de fato ocorre. Alguns pontos:

  1. a elevada taxa de abstenção – em torno de 35% – pode gerar mudança de cenário. Por exemplo, quem tinha boa votação entre os jovens perdeu voto no segundo turno. Ao contrário do imaginado, foram eles e não os idosos que faltaram mais do que o esperado;
  2. Os campos das últimas pesquisas são feitas há 3 a 4 dias do momento da votação em si. Como muita gente deixa para escolher o candidato na última hora, as pesquisas não conseguem capturar possíveis definições desse público. Não são poucos eleitores: em 2018, 12% do eleitorado escolheu seu presidente no dia da votação no segundo turno. No Rio de Janeiro, 24% dos eleitores de Witzel não sabiam seu nome até 48 horas antes do pleito. São dados de pesquisas aplicadas;
  3. As máquinas administrativas têm muita força nos últimos dias. Estamos falando de centenas de cargos em comissão, vereadores e outros grupos fortes de assessores, etc, serviços das prefeituras e/ou de um governo, agindo em prol de um dos lados. Isto pesa nos últimos dias.

Tratam-se de dados objetivos. Agora, você pode acreditar nos pontos conspiratórios mencionados também anteriormente. Mas ainda assim cabe avaliar esse seu sentimento de desconfiança contra as pesquisas eleitorais. O Brasil tem uma das legislações mais duras do mundo entre os que permitem a publicação de pesquisa eleitoral. Mas por qual razão?

As pesquisas foram proibidas durante a ditadura militar, que não queria dados ruins sobre as avaliações de seus governos circulando. O mote para a censura era: as pesquisas enganam manipulam as pessoas. E, ora, até hoje esse imaginário autoritário permeia a visão que se tem das pesquisas.

Por fim, há uma falsa percepção de que os eleitores votam em quem vai ganhar. Por isso, as pesquisas teriam um peso fundamental. Quero dizer, caro leitor que chegou até aqui, que isto é simplesmente falso. 1. Metade dos brasileiros não saber um gráfico; 2. 80% dos eleitores de Natal, por exemplo, não confiam em pesquisas eleitorais. O dado é da tese de doutorado deste blogueiro. 3. pesquisas eleitorais são a oitava fonte de informação das pessoas em um processo eleitoral, conforme pesquisa ibope aplicada em São Paulo. Ou seja, ela é bemmmm secundária. 4. Só quem usa pesquisa como fonte de informação é uma parcela da classe média que faz voto útil. Os estudos empíricos falam em 2% a 4% do eleitorado. E, observe, a pesquisa criará uma informação para que esse pequeno eleitorado aproxime seu interesse com o que quer que aconteça na eleição. É uma informação de suporte e não de enganação. Porque ainda tem outro aspecto: em um ambiente de muitas pesquisas, os poucos eleitores que olham para pesquisa, privilegiarão aqueles números próximos dos seus desejos e não o contrário.

Mas, caro leitor, a teimosia, o desconhecimento técnico, a visão autoritária herdada da ditadura e a ideia de que pobres são enganados por pesquisas geram essa visão de que elas são um problema e até devem ser proibidas no país.

Ninguém, por fim, consegue ter uma visão liberal a respeito delas e olhar para os países em que não há nenhuma regulação de pesquisa: há números para todos os lados e apenas os bons institutos sobrevivem. Aqui, ao contrário, a justiça eleitoral fica chancelando, na medida em que normatiza o registro – o que não significa dizer que a pesquisa será bem feita -, de tudo que é pesquisa em vão.

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