O pior governo da história

Os autores do já clássico estudo “como as democracias morrem” avisaram: promessas autoritárias feitas por políticos autoritários são efetivadas no poder. Era imperioso fazer campanha contra o então candidato Jair Bolsonaro em 2018. Qualquer pessoa minimamente moderada entendia, já naquele momento, a necessidade de deixar as diferenças de lado e buscar qualquer sucessão presidencial que passasse por um mínimo de racionalidade diante do desenrolar dos acontecimentos.

Não eram brincadeirinhas, como muitos imaginaram. As aloprações defendidas por Bolsonaro durante toda a sua vida parlamentar viraram políticas públicas, ou melhor, a destruição do que tinha sido duramente conquistado até aqui.

Não há uma única área da sociedade em que o “mito” não tenha interferido em prol do retrocesso, da desarticulação e, não raro, da implementação do estado de Natureza hobbesiano em que a predação total vira regra: combate ao racismo, meio ambiente, universidades, economia, política externa. O dom da destruição nunca foi tão bem exercitado.

É um governo que não tem a menor cerimônia em mentir da hora em que seus representantes acordam até o momento em que colocam suas cabeças tranquilamente nos travesseiros. Todo mundo sabe quem articula o show de horror cotidiano nas redes sociais e nos grupos de whatsapp. É a única área em que o ajuntamento de populistas que hoje (não) lideram o país é muito eficiente. Eles aprenderam e aplicam bem a lógica do amigo X inimigo, levando a sociedade brasileira a um nível de corrosão em seus laços sociais nunca antes vistos.

Como Deus não é brasileiro, calhou do mundo enfrentar a maior crise sanitária dos últimos cem anos durante a gestão do capitão. E o que era uma perspectiva de retorno ao passado, virou projeto de carnificina. O cálculo eleitoral macabro já antevisto por este modesto blog em março (aqui) segue em plena execução. Incapaz de construir algo e consciente de sua limitação para somar forças, Bolsonaro precificou a morte de centenas de milhares de pessoas para tentar salvar o seu mandato.

O resultado chega. O que ocorre em Manaus é só mais do mesmo. Os líderes bolsonaristas agiram contra e comemoraram o fim da implementação do lockdown num momento em que os hospitais já estavam lotados. Após ser cobrado pela secretária de saúde de Manaus por mais oxigênio, em visita do ministro da saúde no início da semana, Pazuello recomendou o tratamento precoce, nome pomposo para Ivermectina e Cloroquina que já são comprovadamente ineficazes contra covid-19. Com as mortes por ausência de oxigênio nos hospitais de Manaus, Bolsonaro culpou o Supremo Tribunal Federal. Uma velha fake news alegada pelo mesmo que o impediria de agir contra a pandemia. Ora, é uma mentira deslavada. A única afirmação do STF foi em favor da autonomia de Estados e Municípios para tocarem ações de isolamento social no início da pandemia, até porque Bolsonaro queria deixar tudo aberto e sem tomar qualquer providência contra o chamou de gripezinha.

A crise em Manaus é puro suco do Brasil bolsonarista – o que falta deliberadamente na habilidade de agregar sobra no poder de destruição com a (in)consequente busca pela terceirização das responsabilidades. Está no jardim da infância quem imagina que Bolsonaro irá parar. Não é burrice, é projeto.

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