O que o impasse sobre o Hotel Reis Magos diz a respeito de Natal

A celeuma envolvendo a derrubada do Hotel Reis Magos merece uma tentativa de análise mais estruturada. A resolução da batalha não significará o fim da guerra, que já tem data marcada: a revisão do plano diretor de Natal. É de bom tom agora pontuar questões que continuarão a impactar o conflito no decorrer dos debates sobre a alteração (ou não) das regras que regem a organização da cidade.

GRUPOS MOBILIZADOS

Empresários

O tombamento do Hotel Reis Magos foi palco para a geração de duas narrativas. Uma liderada pelo que chamarei de “empresários” – sem nenhuma carga de preconceito -, estes preocupados em resumir o debate sobre questões urbanas ao elemento apenas econômico. Fica explícito que, para eles, a cidade não deve ser espaço a ser repartido entre ricos e pobres. Por exemplo: o ressentimento antipobre é escancarado, não no caso do Hotel, mas pela propagada raiva pelo fato de Mãe Luíza impedir, pelo plano de hoje, o remembramento de terrenos. Esta é uma forma de não expulsar os pobres da região, que é o que justamente o discurso empresarial deixa claro intencionar.

Movimentos sociais

Ainda assim, é preciso levar em conta que a cidade é um espaço de geração de emprego, renda e desenvolvimento. Não para a deixar a administração da capital nas mãos dos empresários, mas para abrir canais de negociação em torno de suas pautas e reivindicações. E este é o principal problema dos movimentos sociais. Eles simplesmente negam que o plano diretor é também um meio de indução de desenvolvimento.

Fortemente pautados por um discurso que tem base na esquerda moradora da região sul de Natal, tais grupos tratam emprego, responsabilidade fiscal e desenvolvimento como temas menores. Ou pior: como dados do “capital”.

No caso do Hotel Reis Magos, por exemplo, apesar de todo o discurso, de toda a militância, faltou demonstrar a validade histórica do equipamento, de onde iria sair o dinheiro para aquisição e reforma e qual seria a sustentabilidade financeira para o futuro. É um problema crônico da militância da esquerda zona sul de Natal: avançaram na capacidade de sustentar opiniões e enquadrar pejorativamente adversários, mas patinam quando há a necessidade de trabalhar com evidências racionais.

A UFRN E O MP

A UFRN e o ministério público se deixaram capturar como “movimento social”. Só que caberia à universidade agir como ator enquanto “comunidade de pensamento” e ao MP o papel de ente regulador. A inserção como movimento social enfraqueceu o poder de atuação das duas instituições. A atuação fora do quadrado gera tais consequências.

GOVERNO DO RN

O governo do Estado, para não desagradar suas bases à esquerda, anuiu a derrubada simplesmente jogando um bode qualquer. Talvez, alguém que esteja no jardim da infância, acredite que o governo não teve tempo hábil para emitir uma opinião.

Aliás, sem demonstração clara de sustentabilidade, com que cara o Governo do Estado iria manter o discurso da austeridade, aprovar uma reforma da previdência, que chega na assembleia em fevereiro, e dispender recursos com algo duvidoso.

Qual relação seria possível com os servidores que ainda têm salários em aberto? Lavar as mãos foi a saída realista encontrada.

PREFEITURA DO NATAL

Há de se levar em conta também que o impasse não chegou até aí gratuitamente. A cobrança pelo poder público de destinação adequada para o equipamento aos donos do hotel nunca ocorreu. E, dada a repercussão do tema, é de estranhar também que agentes da oposição na Câmara não tenham feito qualquer tipo de incursão em torno do assunto.

AUSÊNCIA DE COMPETIÇÃO POLÍTICA E ESFERA PÚBLICA FRÁGIL

Natal sofre com duas questões graves e profundas. A ausência de competição política nas últimas décadas pelo poder, o que oxigenaria a prefeitura e aumentaria a atividade fiscalizatória pela oposição, e carece de uma arena de debate plural. As eleições de 2020 estão batendo a nossa porta e não há um projeto de poder alternativo. O prefeito se reelegerá por inércia e/ou coptação dos demais grupos de poder. A opinião única, que geralmente vem da gestão local, impede também que os projetos e pontos de vista sejam enriquecidos com outras perspectivas (Natal sofre com uma crise fiscal e o assunto não ganha as páginas dos jornais).

A preocupação dos movimentos sociais em utilizar o Hotel Reis Magos como um prelúdio para o debate sobre o plano diretor, vem do fato de que o poder público agiu também para criar a vinculação. E a imprensa local praticamente toda embarcou. Mas são, na verdade, duas questões distintas.

FINALMENTE O PLANO DIRETOR

A destinação do Hotel já aconteceu. O desafio agora será o de encontrar um meio termo entre os dois radicalismos postos: o empresarial e o que vem dos movimentos sociais. Não será tarefa fácil, no enanto necessária.

Natal precisa se desenvolver, só que isto não pode implicar em segregação social. Se a cidade é de todos, como os slogans marqueteiros eleitorais gostam de sinalizar, ela deve ser feita e usufruída por todos.

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