Para ganhar em 2022, Lula se desvinculará de Dilma; a única a tentar enfrentar o “sistema”

A fumaça gerada pelo Ciro Gomes nas redes sociais, em sua frágil tentativa de polarizar com o PT, acendeu um antigo debate – o que representou o governo Dilma? Não é uma pergunta fácil. Ela pegou a barca em um momento de queda do boom das commodities, além de outras situações menos favoráveis do que as encontradas e construídas por Lula, seu mentor e antecessor. A discurssão também acaba por envolver muita paixão. Porém, há um dado que este modesto blogueiro acredita ser insofismável – para vencer, Lula se desvinculará da petista. Não há outra saída.

Aliás, é o que ele tem feito há bastante tempo e arrisco o prognóstico de que ampliará durante a eleição de 2022. Quem leu seu livro-entrevista já viu lá toda a preocupação dele em demarcar diferenças objetivas, que geraram resultados distintos. O ex-presidente sempre foi um hábil articulador junto ao congresso e grupos representativos da sociedade. Dilma tinha muita dificuldade de sentar com um deputado ou senador. O pragmatismo trabalhista de Lula nem de longe se assemelha com o jeito fechado da ex-presidente.

Lula sempre foi bastante distante de qualquer visão lavatista da política. Ora, sejamos claros, a Lava Jato só encontrou condições para se criar pelo avanço institucional das gestões Lula e Dilma (COAF, autonomia do PGR e da PF etc), mas também porque a presidenta blindou a operação desde o início. Nenhum outro mandatário fez ou faria aquilo. Ao assumir, a primeira coisa que Jair Bolsonaro tratou foi desarticular a operação. O “quem fez suas merdas que pague”, frase bem verossímil atribuída a Rousseff, andou de mãos dadas com a forma com que José Eduardo Cardozo, então ministro da justiça, sempre garantiu toda a atuação livre à polícia federal. Nenhum delegado foi trocado como corriqueiramente faz agora Bolsonaro a qualquer operação que estoura – ele substituiu o delegado da PF que apontou quase 200 milhões de reais em contrabando saindo da Amazônia, interferiu na receita federal e na PF para ajudar o próprio filho Flávio Bolsonaro encalacrado em suspeitas de lavagem de dinheiro.

Quando Dilma foi perceber que sua prática antissistema jogou todos contra ela já era tarde demais. Achou ingenuamente que seria reconhecida por combater esquemas que vinham se arrastando há décadas. Terminou apeada e, após a chegada de Michel Temer ao poder, começou a reintegração do sistema em prol do fim das investigações. Bolsonaro termina a tarefa e coloca os principais operadores políticos alcançados pela lava jato em posições de poder – Arthur Lira na presidência, Ciro Nogueira na casa civil, Fernando Bezerra como líder dele no senado, Ricardo Barros na Câmara. Há a maior distribuição de emendas por orçamento secreto da história da democratização com a menor quantidade de projetos aprovados pelo congresso. Bolsonaro basicamente distribui emendas sem qualquer controle em troca de não ser incomodado no poder pelo que fez durante a pandemia no Brasil.

Um velho filósofo barbudo deveria servir de lição. As classes dominantes pregam uma moral que não seguem. E a inocência de Dilma foi de fato achar que havia uma grande preocupação com o problema, enquanto, na verdade, os interesses eram antipetistas, na forma de negar aos pobres uma representação política; e antipovo, na perspectiva de impedir que o orçamento chegasse aos mais desfavorecidos. Com Temer, sob o falso argumento de desvios, já se começa, por exemplo, a minguar o Programa Bolsa Família. Logo em seguida, se acentuam os ataques contra os avanços gerados pela constituição de 1988, o grande projeto de bolsonarismo.

Porém, o que importa na política são os resultados, não as intenções. Pode parecer nobre a maneira com que a presidente enfrentou o sistema bancário, mas o revés político e econômico vieram. Dilma saiu do governo mal avaliada. É um fato objetivo. O povo não quer Dilma. Quer Lula. As elites que aceitam negociar com Lula, não querem nem sonhar com a possibilidade de uma gestão do PT ao estilo Dilma. É um dado realístico a ser devidamente enfrentado caso o PT queira chegar ao poder novamente em 2022. Lula, talvez a maior liderança da história do Brasil com a capacidade de manejar os antagonismos de um país tão desigual como o nosso, já trabalha com tal discurso. Em seu feeling político tratará de comunicar de forma sutil isto a militância que o apoia.

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