Sobre o hotel Reis Magos e a agenda da esquerda zona sul

Parte da esquerda ainda briga pela manutenção, com dinheiro público, do hotel Reis Magos. É impressionante e lamentável porque demonstra uma desconexão tremenda com o que o RN vivencia.

Falo em “parte” porque Fátima só conseguiu chegar aonde chegou, na medida em que furou essa bolha da esquerda local: abriu seu arco de alianças e, com a estrutura do governo federal nas mãos, investiu em projetos contra a desigualdade, contrariando o que se denomina no dito campo progressista de “agenda zona sul”.

A agenda zona sul da esquerda secundariza o combate à desigualdade e a ordenação das finanças públicas como elemento norteador de serviços efetivos e sustentáveis, defende certo purismo político no processo de alianças e coloca como questão central uma pauta identitária cultural. Na prática, o discurso se volta para a defesa de lugares de fala e atos performáticos como condições exclusivas de poder para se fazer política.

É uma forma atravessada de criar uma hierarquia às avessas. Coloca-se em primeiro plano a chamada agenda pós-materialista em detrimento das carências extremas, deixando de lado, por exemplo, que cerca de 1/3 da população do estado convive com a falta ou restrição parcial de água.

A tão sonhada modernidade não é arranhada por aqui apenas no aspecto hídrico, o que já não seria pouco. Se alguém sair de Natal até Caiçara do Rio do Vento, que fica a menos de 100 kms da capital, terá dificuldade para fazer uma simples ligação em diversos pontos da cidade, pois nenhuma operadora funciona. Imagine o grau de exclusão que é viver apartado de internet/smartphone no mundo de hoje. O marco regulatório de expansão das torres de sinal ainda não foi efetivado no RN, apesar de vencido tem quase uma década. Desculpa pelo trocadilho inevitável: quem liga?

Convivemos com graves carências em serviços públicos. A tropa policial se aproxima de um déficit de 10 mil homens. O Estado, que deve três folhas salariais, não tem como contratar. O resultado é uma elevada taxa de homicídios contra, principalmente, jovens, pobres e negros e o cidadão do RN, sem distinção, espoliado pelos assaltos e crimes contra o patrimônio. Dia desses, uma pessoa me dizia que já tinha perdido para os assaltantes nada menos do que seis smartphones. Diante de um Estado que não a protege, essa pessoa virou ferrenha defensora de pena de morte e outras medidas autoritárias. Sem Estado, aderiu a lei da selva.

Perdemos divisas para a Paraíba, Pernambuco ou Ceará e, consequentemente impostos para investir no RN, porque nossa infraestrutura está exaurida. Empresas estaduais perdem mercado lá fora porque nosso porto não tem um simples scanner para controlar o envio de cocaína misturada às cargas.

É diante desse cenário que um grupo minoritário e barulhento se mobiliza para que o governo gaste milhões que não possui na manutenção de uma estrutura de qualidade duvidosa. Um tiro no pé contra a agenda prioritária do RN e uma péssima mensagem transmitida por essa esquerda, agora enquadrada – sem razão?! – como retrógrada.

Não há dúvida de que o grupo hoje no prumo estadual não vai embarcar nessa nau. A governadora com o tino político que tem irá mais uma vez contrariar a agenda zona sul da esquerda. O custo político será setorial, mas com uma sinalização geral pedagógica de que há gente com mente arejada no poder.

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