Sobre o tema mais hipócrita da sociedade brasileira

Não existe tema mais cortado de hipocrisia do que o do aborto. Todos conhecem homens que pressionaram parceiras por isso. E quando não, basta ser alguém próximo para que a gente passe a entender as razões. É um moralismo público que não seguimos na prática quando nos atinge. E há mais, muito mais.

Natal está lotada de crianças nas ruas, nos sinais, nos supermercados, nas praças. Essas vidas não valem? Por que não há movimento semelhante para salvar tais seres já constituídos?

Milhares de mulheres morrem por falta de amparo de saúde no momento da interrupção da gravidez – 25% das brasileiras fazem ao menos um aborto na vida. A que tem dinheiro vai para clínica clandestina. A que não tem morre em casa pelas complicações e práticas medievais. Veja se esse povo liga. É um movimento que é tudo, menos pró-vida. Até porque não há ali uma pessoa ainda. O coração não bate. Uma mente não existe. Só há junção de um espermatozóide com um embrião.

Como no Brasil aborto é crime, então tudo acontece às escondidas. Diante de tal configuração, a prática aumenta. Em países em que o aborto passou a ser uma questão de saúde e não mais de polícia, as mortes de mulheres durante o ato despencou. E como há assistência psicológica e familiar, o próprio aborto também decresceu.

O tema surge no momento da eleição, claro. Um governo que atrasou a vacinação, o que o infectologista Pedro Hallal estima a produção de 48 mil óbitos gerados apenas por este aspecto; brincou com os brasileiros durante uma pandemia, mentiu, espalhou falsas informações e tratamentos que levaram a morte milhares agora se diz preocupado com bebês que não foram objetivamente concebidos. Tudo sai da boca de um presidente confessadamente autor do pedido para a sua segunda mulher, conforme entrevista dada por ele em 2002, que abortasse o quarto filho. O que se delicia com o grito: “CPF cancelado”. Apelação oportunista em prol de votos de eleitores conservadores e evangélicos.

Não é a vida propriamente que estão em questão, já que o assunto passa todo o pano possível para as mortes cotidianas produzidas pela negação de assistência de saúde a quem de fato está morrendo e não demonstra nenhuma ligação com os seres objetivamente existentes. É a tentativa de impor a terceiros um modo de vida que deve ser de escolha pessoal. Ou do faça, mas sem ninguém saber. E se você morrer o problema é seu.

Uma parte pode ser convencida do contrário. Outra não. Eles devem ser derrotados para que guardem suas concepções apenas para si mesmos para o bem de todos.

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