Apesar da insistente defesa do prefeito, a narrativa da ivermerctina em Natal está nua

Diante dos hospitais lotados em Natal com pacientes covid-19, o prefeito da cidade, Álvaro Dias, disse que vai intensificar a distribuição de ivermerctina e tentar junto ao governo federal mais dez leitos.

Além de tudo que já foi dito pela organização mundial de saúde, por cientistas e agências sanitárias do mundo, o dado é que a maioria dos natalenses está tomando o vermífugo e de nada adiantou. A própria prefeitura fez uma distribuição em massa e nunca as farmácias venderam tanto o anti-piolho. Há carros de som circulando nos bairros e as drogarias ostentam faixas: “ainda temos ivermerctina”. A Agência Pública, em matéria sobre a situação de Natal, apurou que o estoque de ivermerctina de uma farmácia de manipulação, que durava quatro meses, hoje é vendido, em média, em dois dias (leia aqui).

Caro leitor, apelo para o seu bom senso e peço que se pergunte: na sua família e entre seus amigos, quantos tomaram?! E entre os que adoeceram e faleceram que você conhece? Na minha família, a maioria está tomando e os que conheço que ficaram em situação difícil também.

Mas dê uma entrada no site do LAIS/UFRN e veja que a região metropolitana é a que tem a pior situação no RN e, entre as cidades que a compõem, Natal é a que tem mais casos e óbitos registrados.

Se a dita cidade do sol é exemplo de algo, é que essa pseudociência que alicerçou remédio originalmente usado em gado como profilaxia contra o novo coronavírus foi uma tragédia.

Mas o prefeito precisa agora manter a farsa. Ele cria uma falsa suposição contrária, como se as pessoas que são contaminadas e morressem em Natal não tivessem tomado esse remédio, pra assim embalar seu argumento.

Por qual razão? Ora, porque a narrativa do prefeito está nua. E, em ficando claro essa questão, ele sairá do céu, em que foi reeleito em primeiro turno, para o inferno político, tendo de explicar o fato de ter feito uma população inteira acreditar e se empanturrar com uma droga ineficaz contra a pandemia em curso.

Aí vem o segundo complicador. Ele teria de agir de fato. Natal e o RN seguem em crescimento de casos e óbitos por covid-19 e, com o carnaval, a situação tende a piorar. Não demorará a faltar vaga nos hospitais. Um giro de 180° seria muito negativo para suas pretensões eleitorais em 2022.

O PAPEL DA IMPRENSA

A imprensa tem um papel fundamental em Natal, assim como teve em Manaus. Lá, como aqui, as autoridades tentaram vender a mesma falsa ideia de que as pessoas estavam morrendo porque não estavam tomando tratamento precoce, uma forma de escamotear o problema por retórica ideológica. As matérias demonstrando o contrário foram imprescindíveis para fazer o governo agir no sentido correto, já que elas mostraram que o pressuposto do ministério da saúde era duplamente falso. Além da ineficácia dos medicamentos, as pessoas que morriam tinham sim tomado cloroquina, azitromicina e ivermectina.

Natal precisa de sensatez e, nesse caso, também de jornalismo. Quantos comprimidos foram distribuídos em Natal, sem gerar o efeito prometido? As pessoas que estão morrendo tomaram a profilaxia salvadora? O que falam seus familiares? Por que os médicos e outros profissionais de saúde alinhados com a ciência não têm espaço em Natal? São tantos os meios para desmanchar essa precária narrativa, apresentar a verdade e ajudar a cidade a se livrar dessa história em busca de uma visao racional e, portanto, menos letal. Urge começar.

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