Cinco pontos sobre os ataques à Funpec e o cancelamento da cerimônia de posse do novo reitor da UFRN

CINCO PONTOS SOBRE OS ATAQUES À FUNPEC

O ataque à Funpec revela um conjunto de questões. Falarei de cinco pontos que considero os mais fundamentais.

Primeiro, não deixa de ter efeito positivo. Ficou claro que a fundação tem portal da transparência e, ao contrário do que muita gente imagina – não apenas ela, como também a UFRN -, é controlada por por todos os entes fiscalizadores como qualquer instituição.

Segundo, há uma tentativa de forjar uma malversação do dinheiro público, como uma forma de legitimar os cortes nas universidades e parar os protestos contra Bolsonaro. Números e mais números são rebolados para cima sem qualquer contextualização. Como tudo que envolve a Funpec – e a UFRN – é muito colossal, o leigo já relaciona o dado elevado à roubo. Sequer espera a explicação do outro lado.

Estamos numa era em que a análise não acontece mais em torno de fatos. Na verdade, ela trabalha para forjá-los.

Terceiro, há o interesse alicerçado no fato do mercado publicitário/comunicação local não ter participado de uma grande licitação já mencionada em tudo que é jornal da cidade na área feita pela fundação.

Quarto, há um quarto ponto que envolve todo o ataque às universidades em geral. É o ressentimento do leigo e de quem acha que a realidade pode ser enxergada sem teoria, contra o especialista que de fato faz pesquisa demorada, parcimoniosa e, portanto, capaz de gerar maiores frutos.

Daí tal ressentimento se expressar mais fortemente contra as ciências humanas. É nesta área que a ideologia da ciência sem teoria ganha os corações de quem trabalha na mídia, do brasileiro médio pouco letrado, digamos assim. Na situação de recalque se encontra aquele que acha que pode falar, por exemplo, sobre sistemas de governo com a mesma força analítica de quem estuda há anos o assunto.

Ele convida – quando convida – um profissional da área para uma entrevista contrariado.

Passo por essa situação com muita frequência. Quando chamado a falar sobre pesquisa eleitoral, cito inúmeros dados e estudos que mostram que, ao contrário do que diz o senso comum, o poder de influência da publicação de pesquisas eleitorais durante uma eleição é pequeno. Mas não adianta. Por mais que eu pondere, quando a entrevista se encerra, o entrevistador diz, alguns educadamente – outros nem tanto -, que a “experiência” dele mostra a ele que eu estou errado e que os estudos que citei não servem para nada.

Geralmente, ouço o argumento em torno de uma falsa – e ressentida – dicotomia entre a verdade que pode ser atingida sem mediações científicas – um suposto jeito da vida como ela é – X uma ingenuidade que pode ser encontrada nos livros. O bolsonarismo foi pródigo em alimentar esse sentimento.

Por fim, é preciso que o trabalho de comunicação e divulgação de tudo que envolve a universidade mude. Ficou claro de uma forma dolorosa que não é pressuposto básico que uma sociedade irá apoiar a existência de uma universidade, mesmo com todos os serviços prestados pela UFRN. Alastrar a informação sobre tudo o que a UFRN faz deve virar uma rotina. Além disso, a UFRN não está preparada para o gerenciamento de uma crise de imagem.

No caso da Funpec em particular, tudo foi arquitetado em torno do básico gerado quando se deseja colar um problema em alguém. Jogaram com o desconhecimento de parte da população, veicularam números pela metade e pressionaram até o Ministério Público se manifestar, pois quando o MP fala, fica a impressão de que há, de imediato, algo errado. É assim que funciona. Não adianta ficar com raiva. Os passos eram óbvios, mas ainda assim foram ignorados. Que fique o aprendizado.

PS. A reitoria deu munição ao cancelar o evento de posse. A resposta às críticas deveria ter caminhado no sentido inverso. Ao invés de fazer uma cerimônia em Brasília, dando razão aos ataques, era para ter mantido o ato no teatro Riachuelo. E mais. Ter levado toda a classe política, acadêmica e empresarial do RN. A exposição de convidados como representantes da Fiern, CDL, da bancada federal, do legislativo, executivo, judiciário, etc, apagaria o ímpeto local.

Como disse aqui, ao cancelar o evento, a UFRN deu munição para os ataques e não o contrário.

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