Editorial: crise atinge símbolo nacional

O Instituto DataFolha publicou levantamento recentemente feito em que demonstra um desinteresse total recorde pela copa do mundo de futebol, que começou com muitos gols. Conforme a sondagem, 53% dos entrevistados alegam que darão de ombros para o torneio máximo do esporte bretão. Outros 18% dizem ter grande interesse e igual fatia interesse médio. Por fim, 9% enfatizam que dispensarão um pouquinho de atenção. É o pior resultado desde 1994 quando a série histórica começou a ser construída.

Muitas explicações vêm sendo levantadas, tais como crise econômica, derrota acachapante do Brasil contra a Alemanha em 2014, a corrupção escancarada na confederação brasileira de futebol, o uso da camisa amarela nas manifestações pró-impeachment da presidente Dilma e até a queda no gosto do brasileiro pelo futebol. Sem dúvida alguma, todos os aspectos listados contribuem para o fenômeno. Mas há algo mais profundo que gostaria de levantar como hipótese. A radicalização e crise vivenciadas desde às manifestações de 2013, explosões de insatisfações, ressentimentos e rancores que borbulhavam reunidos pomposamente em torno da alcunha “jornadas de junho”, geraram uma fratura no tecido social e político difícil de transpor e que impacta num símbolo positivo da auto-imagem nacional.

Há uma inegável tristeza e decepção intersubjetivamente compartilhadas no país sobre o significado de ser brasileiro, figura agora alçada, mais do que no passado, a uma condição de passividade, incapacidade de superar desafios e intrinsecamente atrelada ao mito de um ser essencialmente corrupto.

Uma nação não sobrevive sem uma valorização do seu passado e muito menos carente de uma narrativa sobre o que fará diante de suas perspectivas de futuro. A seleção brasileira, orgulho verde e amarelo, paga um alto preço por uma conta em que ela não é, nem de longe, responsável.

TORCIDA

Ainda assim, não é prudente, ao menos do ponto de vista político em ano eleitoral, apostar e demonstrar publicamente que é contrário ao sucesso da seleção diante empreitada que se avizinha. A atitude, mesmo com toda a apatia, será encarada como uma posição “contra o Brasil”. Este modesto escriba torce para que o ranço se esfarele no decorrer dos jogos. É um perigo ver o modo como a extrema-direita, aquela que defende o mata e esfola, se apropria, nadando de braçada contra setores mais moderados, do sentido do que é ser patriota.

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