Os donos do Brasil: a festa do boi

A operação lava jato cria hierarquia falsa entre empresários e políticos. O dono da JBS, Joesley Batista, que comprou todo mundo na política e operou na disputa pela presidência da câmara na vitória de Eduardo Cunha, está em casa numa boa e rico. Os comprados estão presos. Ele não “foi obrigado” a agir assim, como alega em suas delações.

O cara não é o mitico e sofrido empresário obrigado a repassar recursos aos políticos para sobreviver. Pela matéria da Crusoé, trata-se de conversa pra boi dormir. Na verdade, agia estrategicamente comprando quem fosse necessário para concretizar seus negócios. O operador de tudo está em casa, rico e numa boa. Veja a matéria da revista Crusoé.

Leia toda materia mencionada abaixo e tire suas conclusões:

 

Domingo, 26 de outubro de 2014. A cúpula de uma das maiores companhias do Brasil se reúne em uma exuberante mansão no Jardim Europa, na capital paulista, para acompanhar a contagem dos votos do segundo turno. Havia uma eleição presidencial em aberto. Dilma Rousseff e Aécio Neves protagonizavam uma das mais acirradas disputas eleitorais da história brasileira desde a redemocratização. A casa é de Joesley Batista, o dono da JBS. O empresário, alçado havia alguns anos ao estrelato dos negócios pela política dos campeões nacionais do governo Lula, tinha se tornado também um dos maiores fínanciadores de campanha do país.

A ideia do convescote, para o qual ele reuniu alguns de seus parceiros mais próximos, era conferir o resultado do investimento. O grupo se reuniu à beira da piscina. A festa, regada a muita bebida, com a turma se jogando na água de roupa e tudo, entraria pela madrugada. E acabaria, sem que ninguém ali soubesse, por proporcionar a um grupo restrito de investigadores da Polícia Federal um retrato bem acabado, e até hoje inédito, do auge da influência de Joesley e da JBS sobre o poder, graças aos milhões que o grupo colocava nas mãos dos políticos.

Àquela altura, a Lavajato ainda não ameaçava o império de Joesley. Tampouco havia no horizonte a possibilidade de ele e seus principais executivos partirem para uma delação premiada em que revelariam detalhes do relacionamento estreito que mantinham com quase 2 mil políticos de diferentes partidos e estaturas.

Entre os convivas estava Ricardo Saud, o diretor de relações institucionais do grupo, cuja função precípua era justamente fazer a interface mais direta entre o mundo da política e a empresa. Saud estava com o telefone grampeado pela PF em decorrência de uma investigação que mirava um personagem menor, o prefeito petista de Uberlândia, no Triângulo Mineiro.

Como cabia a ele, Saud, fazer a ponte da JBS com o poder, foi a partir de seu telefone celular que o grupo passou a receber e disparar ligações para comemorar os resultados das urnas. O teor dos diálogos ilustra bem a mistura de interesses e a promiscuidade que havia entre eles, os patrocinadores, e os políticos patrocinados. E era um prenúncio da tempestade que viria três anos depois.

Em todo o país, eram altas as expectativas com o pleito. Os ânimos estavam acirrados. Aécio Neves, candidato do PSDB, vinha crescendo nas pesquisas e tinha chances reais de vencer a então presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, podendo romper a hegemonia de doze anos do PT no governo federal. Na mansão de Joesley, havia até bolão para ver quem acertava o resultado da corrida presidencial e das eleições nos estados onde a disputa havia ido para o segundo turno. O tempo todo chegavam informações sobre as pesquisas feitas no dia pelos vários partidos. Passava pouco das 20 horas quando chegou a notícia de que Aécio já não conseguiria mais alcançar Dilma na disputa pelo Planalto. As conversas não deixam claro como eles haviam chegado a essa conclusão, já que, oficialmente, só meia hora depois o Tribunal Superior Eleitoral anunciaria que a eleição estava resolvida. Recebida a informação, a comemoração foi geral. O telefone de Saud, em especial, não parava.

Precisamente às 22h09, ele dispara uma ligação para um número de Brasília. Do outro lado, atende alguém com voz solene, que reconhece de pronto o número e fala de maneira carinhosa: “Oi, Ricardo”. “Michel?”, responde Saud. O interlocutor, então, parte direto para o agradecimento, sem dizer nada antes: “Obrigado, Ricardo”. Era Michel Temer, vice-presidente da República que acabara de ser reeleito juntamente com Dilma. Saud congratula o “amigo” pela vitória e logo passa o aparelho para Joesley. “Amigo, parabéns! Espere aí que vou passar para o chefe aqui. Espere aí que vou passar para o Joesley aqui.

O Joesley está aqui, espere aí só um minutinho, só um minutinho.” “Maravilha, tá bom”, diz Temer. Joesley entra em cena.

Temer o cumprimenta sem disfarçar a alegria. “Oi Joesley.” O dono da JBS trata o vice como “chefe”. “Chefe, parabéns, hein!?”

E quando surge na conversa um detalhe irônico. Temer o convida para um encontro no… Palácio do Jaburu, a residência oficial da Vice-Presidência da República: “Obrigadíssimo, amigo, obrigadíssimo. Agora, vem cá. Agora vamos fazer aquele almoço ou aquele jantar no Jaburu?”. “Pois é, pô!”, diz Joesley Batista. “Aquele churrasco {risos)”, emenda Temer. O dono da JBS reforça: “Temos que fazer em um fim de semana. Pega um fim de semana aí e nós vamos fazer”. “Vamos fazer, vamos fazer, tá bom? Obrigadíssimo aí por tudo, viu?”, diz o vice. “Estou aguardando o convite. Valeu, querido! Parabéns! Abraço “‘ encerra Joesley. Quem sabe o que aconteceu quase dois anos depois em Brasília entende o quão irônica – e até profética – era essa conversa. Foi em um encontro justamente no Palácio do Jaburu, em março de 2017, que Joesley, já signatário de um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República, usou um gravador escondido para registrar uma conversa pouco ortodoxa com Michel Temer, em que ambos tratavam da estratégia para evitar que a Lavajato os alcançasse. Era o começo da derrocada de Temer, que havia sido alçado à condição de presidente da República com o impeachment de Dilma. Hoje, ele é réu em quatro processos decorrentes da colaboração premiada da JBS.

Mais do que parabenizar os vencedores, o executivo não disfarçou sua alegria com o resultado. Ao falar com um dos coordenadores da campanha de Dilma na época, o ex-ministro e ex-governador de Minas, Fernando Pimentel, ele chegou a fazer piada com o PSDB: “É o seguinte, eu tenho uma notícia muito boa para te dar, minha piscina tá cheia de água!”, afirmou, em referência à crise hídrica que assolava o estado de São Paulo, governado durante anos por tucanos. “Óh, que maravilha!”, responde Pimentel “Se você estivesse por aqui ia te chamar, rapaz, para nadar na minha piscina, tá cheia d’água, tá tudo bem”, segue Joesley, entre risadas. “Agora, é o seguinte: o Sistema Cantareira aproveitou a água com as lágrimas dos tucanos”, diz Pimentel. “Isso, vai inundar, vai lotar, vai derramar agora”, responde Joesley. Passada a brincadeira, o empresário não perde a oportunidade de, ao despedir-se, já combinar um encontro com o petista que havia vencido a eleição para o governo de Minas naquele ano em primeiro turno. “Ó, antes de assumir o poder lá (em Minas), vamos aproveitar para vir aqui em São Paulo pra gente almoçar e dar uma conversada”, comenta Batista. “Vamos, vamos, eu te ligo, eu te ligo, eu vou”, responde Pimentel, que completa com um agradecimento comum aos políticos que conversavam com Joesley, deixando sempre evidente o papel do empresário (e de seu generoso cofre) nos resultados eleitorais: “Obrigado por tudo, abraço”. Detalhe: quando era ministro de Dilma, no mandato anterior, Pimentel tinha sob sua alçada o BNDES, onde a JBS obteve empréstimos bilionários, agora investigados.

Joesley tinha motivos de sobra pra comemorar a continuidade da dobradinha PT-MDB no poder. Afinal, foi durante a era petista, e à custa de facilidades obtidas em Brasília, que o seu frigorífico deixou de ser mais uma empresa para se tornar a maior produtora mundial de proteína animal, com um faturamento de 120 bilhões de reais em 2014. Como revelaram mais tarde as investigações, e os próprios executivos do Grupo JBS em suas delações premiadas, grande parte desse crescimento foi consequência da articulada estratégia da empresa de encher o bolso de políticos, seja por meio das gordas doações eleitorais oficiais, seja pelas entregas de dinheiro em espécie por fora, em troca de facilidades.

Como lobista responsável por transitar pelos corredores do poder, Saud já tinha enraizado esse modus operandi, focado na articulação constante com o mundo político e no loteamento de cargos para atender os interesses futuros da companhia.

E dessa lógica, a de que graças ao dinheiro que investia nos políticos a JBS poderia interferir diretamente nos governos, que sobressai mais uma conversa interessante entre as tantas gravadas pela Polícia Federal naquele domingo festivo na mansão de Joesley. Havia por lá outro convidado ilustre.

Era Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central no governo Lula, que àquela altura estava trabalhando para os irmãos Batista, como presidente do Conselho da Administração da holding da JBS. Estava claro, ali, que a ideia era colocar Meirelles novamente no centro do poder de Brasília. Saud não se faz de rogado e, em uma das conversas, chega até a fazer um convite para que um amigo, o secretário da Fazenda de Santa Catarina, integre a equipe do “futuro” ministro Henrique Meirelles. O secretário, Antônio Marcos Gavazzoni, se mostra contente com a oferta.

Parecia haver uma combinação prévia. ‘Você quer que o Henrique Meirelles te faz (sic) o convite aqui agora ou quer esperar acabar a eleição?”, pergunta Saud. “Não, não. Eu faço o que vocês quiserem, homem de Deus”, responde Gavazzoni, que em seguida, pelo telefone grampeado de Saud, passa a falar com o próprio Henrique Meirelles. Apesar da tentativa, e das pressões em favor de Meirelles, Dilma Rousseff acabou colocando Joaquim Levy na Fazenda em seu segundo mandato. Ele só assumiria o posto depois da queda da petista, pelas mãos de Michel Temer, o outro “amigo” da JBS. Se com Meirelles a tentativa de articulação não foi bem-sucedida no tempo que o grupo imaginava, com outra figura emblemática da cena política nacional o plano deu muito certo. Era Eduardo Cunha, à época um dos expoentes do PMDB na Câmara, detentor de azeitados esquemas em áreas do governo que interessavam às empresas do grupo – de financiamentos da Caixa Econômica Federal a áreas importantes do Ministério da Agricultura. Às 21h28, Saud telefona para Cunha e, ciente da importância do deputado para a empresa, já anuncia o apoio à sua candidatura para a presidência da Câmara no ano seguinte. “Ó: Começamos hoje, eu Joesley, Wesley, José Carlos (Grubisich, presidente de uma das empresas do grupo), Henrique Meirelles, estamos aqui todos nós pra te dar um abraço. Começamos hoje a sua campanha a presidente da Câmara viu?”, afirma o diretor da JBS. “Tá bom, querido!”, responde Cunha. Em seguida, repetindo o ritual, Saud passa o telefone para Joesley. O dono da JBS reforça o discurso: “Vem aqui, vem aqui, vamos se (sic) alinhar aqui, porque de agora pra frente tem que se alinhar aqui pra fazer campanha no bumbo”, afirma o empresário. “Tá, vamos fazer campanha, e muito obrigado por tudo, por tudo você foi 100% tá?”, responde Eduardo Cunha. Passados os cumprimentos aos políticos que tiveram o poder chancelado mais uma vez naquele domingo, com todas as consequências positivas que isso traria para os esquemas da JBS que estavam (e continuariam) a todo vapor, Saud e os demais, Joesley entre eles, aproveitaram para, literalmente, se jogar na festa. Decidiram pular na piscina. Quando eles estavam dentro d’agua, o celular de Saud tocou. Desta vez, quem queria falar com ele era Frederico Pacheco, primo do derrotado Aecio Neves que havia trabalhado como tesoureiro da campanha presidencial tucana naquele ano. Em uma amostra de que jogava bem dos dois lados, Saud improvisa um discurso de oposição- a JBS, como é sabido, tinha investido pesado também na campanha de Aécio . “Quase que deu né, amigo?”, lamenta Frederico.

“Ganhamos, rapaz. Rapaz, isso aí é uma vitória, moço. Tá louco, uai?”, responde Saud, realçando o sotaque mineiro. Ele se referia à derrota de Aécio para Dilma por apenas 3,5 milhões de votos. Saud aproveita a oportunidade para já combinar mais um encontro. “Vamos agora almoçar com nosso chefe aí, fazer agora uma oposição. Não vamos deixar esse povo ganhar, não. Vamos meter o pé nesse povo agora”, afirma o executivo. “Vamos, vamos em frente”, responde Frederico, que se despede da conversa como os demais: agradecendo “por tudo”.

Na manhã seguinte, Saud ainda se recuperava da ressaca quando lembrou que tinha deixado passar uma reunião com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, agendada para às 11 horas. Naquela segunda-feira, o executivo começou a trabalhar só no final da manhã. A rotina do lobista da JBS incluía despachos com políticos de esquerda e de direita, passando pelo centro, reuniões para discutir estratégias de atuaçâo em Brasília e até a articulação para incluir propostas de interesse da empresa em projetos em tramitação no Congresso. Saud se mostra cuidadoso em conversas mais sensíveis, evita falar em valores, mas por vezes deixa escapar indícios do que mais tarde ficaria claro com a delação premiada do grupo: tudo funcionava à base de propina e de repasses para campanhas. Menos de 24 horas após o resultado da eleição, às 18h48 daquela segunda, as contas começam a chegar. Saud recebe uma ligação de Manoel de Araújo Sobrinho, então assessor de Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma.

Araújo pergunta quem era o destinatário de um repasse de 3 milhões de reais para o PT que havia ficado acertado com “o chefe”.

O diretor da JBS, então, checa com o contador Demilton Antônio de Castro, responsável por organizar as planilhas de propina da empresa, e confirma: o dinheiro estava carimbado para a hoje presidente do PT Gleisi Hoffmann.

“Peraí um pouquinho (…) o do Pimentel foi direto pra Belo Horizonte, né? (…) É da Gleisi mesmo (o valor de 3 milhões de reais}”, diz Saud. Sem render o assunto, Sobrinho agradece e eles encerram a conversa. Os repasses para Gleisi e para Pimentel mencionados na conversa foram feitos na forma de doação oficial da empresa para a direção nacional do PT e aparecem na delação da JBS como parte do acerto de propinas com Guido Mantega relacionados aos aportes do BNDES para a empresa. O esquema, inclusive, foi denunciado neste ano pelo Ministério Público Federal, que aponta um rombo de 1,8 bilhão de reais nas operações do banco estatal para financiar a expansão da JBS no exterior. Já na terça-feira após a eleição, Saud vai para Brasília e retoma de forma mais intensa a rotina de reuniões, pedidos e acertos, nem sempre registrados, com políticos. Após receber uma cobrança de um “amigo do Rio”, ele conversa com Eduardo Cunha e tenta acertar um encontro entre Florisvaldo Caetano de Oliveira, da JBS, e Altair Alves Pinto, um dos motoristas de Eduardo Cunha no Rio.

Como seria revelado anos mais tarde, Florisvaldo e Altair eram os homens da mala que operavam a entrega de propinas para a empresa e para o deputado, respectivamente. “Deixa eu te falar, você não me empresta aquele motorista seu com o carro, não, para o Florisvaldo?”, pergunta Saud. “Olha, eu até faria. O problema só é que, por acaso, eu ontem encostei esse carro pra fazer uma lanternagem, cara. Eu posso tentar arrumar um outro, às 3 horas (da tarde), um outro carro que não seja aquele, né?”, responde Cunha Sem dar mais nomes, Saud insiste:

“Preciso resolver um negócio lá, imediatamente, de um amigo seu inclusive, e ele pegou muita confiança no rapaz seu lá”. “É, eu vou pedir, eu vou pedir… Manda ele lá no escritório lá com o Altair, ta?”, segue o deputado.

Conforme Florisvaldo revelaria anos mais tarde, ao ser incluído entre os delatores da JBS, viagens como aquela ao Rio eram recorrentes em sua rotina de entrega de propinas para Eduardo Cunha e seus aliados.

Nos dias seguintes, ainda em Brasília, Ricardo Saud encontraria o então senador Romero Jucá e o deputado Paulinho da Força e agendaria reuniões com integrantes das campanhas de Dilma e Aécio, que ainda estavam organizando suas prestações de contas. Na quarta-feira, ele vai ao encontro de Michel Temer, na presidência do MDB em Brasília. Como o próprio Saud revelou nos depoimentos de sua delação, naquele período foram muitos os encontros com Temer para ajustar o acerto de propina das eleições com o emedebista. Para garantir o apoio do partido a chapa petista naquele ano, segundo os delatores, foram repassados 15 milhões de reais a políticos e empresas indicados pelo então vice-presidente. No mesmo, dia ele se reúne com parlamentares do MDB no Senado, marca um jantar com Calheiros, e com o senador Vital do Rêgo, agora ministro do TCU, e fecha a agenda com um evento no STF em homenagem ao então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Nestes cinco anos que se passaram desde a festança à beira da piscina, Joesley e sua turma viram seu império flertar com a ruína, amargaram prisões temporárias e agora lutam para manter válido o acordo de colaboração premiada que fizeram. Os políticos com os quais eles comemoraram o resultado das eleições também enfrentam processos na Justiça que podem terminar em cadeia para muitos. Espera-se que, tão cedo, convescotes como aquele de 26 de outubro de 2014 não se repitam.

Porque, mais do que nunca, agora se sabe como eles eram indigestos para o país.

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