Por que o espanto? Bolsonaro, seus tweets e o horror demonstrado pela imprensa

Durante a semana do carnaval um amigo me chamou de careta. Motivo: não participo da festa momesca. Nada tenho contra ela. Só o cansaço mesmo da idade, que já raspa os quarenta. Gosto de política, de fazer esporte e ficar em casa com os meus. Só. Respondi dizendo que a maioria da população não brinca carnaval. Ele se assustou e alegou que era uma fake news. Mostrei pesquisas de opinião ao dito cujo.

É o problema mais recorrente na análise social e política. Tomar uma visão ou prática particular como se fosse algo geral. Como ele não perde um carnaval e, possivelmente, seus amigos também, ele supõe que todo mundo faz parte dele.

O exemplo é elucidativo para refletir sobre os tweets obscenos do presidente Jair Bolsonaro. Após ter seu nome atrelado às reprovações populares no feriadão de baco, passou a vociferar contra os blocos de rua, chegando a postar inclusive uma escatologia de pessoas que, em plena praça pública, urinam umas nas outras e tocam o próprio anus.

O comportamento seria absurdo para um presidente, se este não fosse o normal para Bolsonaro pelos últimos 30 anos em que foi deputado federal. Ele se tornou conhecido por isso e é ingênuo agora se espantar com o ato, como se estivessemos diante de uma grande novidade. Quem escreveu editorial alegando que Bolsonaro não é extremista, quem o igualou aos demais concorrentes de 2018, que embale a encomenda e guarde em casa junto com a própria cegueira.

A aparente infatilidade twitteira do presidente tem método e objetivo claros. Visa falar para a sua base radical, deixá-la em transe ativo. Este eleitor acredita que nossa crise econômica tem interação direta com uma suposta crise de valores, que para ele são superiores.

A tática é de alastramento do ódio como escudo e contra-ofensiva. E, ora, não nos enganemos, o medo venceu em 2018 e segue competitivo. Portanto, se há valores superiores, quem não preza por eles representa o polo inferior. A lógica é do sagrado x profano. A publicização de um comportamento isolado em tom de denúncia tem como meta estigmatizar grupos e enquadrar espaços em que Bolsonaro está sendo criticado. Neste sentido, os tweets de Bolsonaro são estratégicos e nada juvenis.

O grande mal não está distante da razão, mas faz nela morada até subverte-la.

E não pára por aí. O presidente e sua prole atuante dependem da manutenção constante da polarização para sobreviverem, assim como sua base social radical se alimenta da retórica da cruzada moral. Com a elevação do barulho em torno do tema, fica em segundo plano a questão do novamente crescente desemprego, reforma da previdência, trapalhadas ambientais, o moralismo administrativo que se esfacela numa velocidade impressionante e o desastre da articulação do governo junto ao congresso nacional.

Ao centralizar o debate (sic) em torno de meia dúzia de aloprados carnavalescos, Bolsonaro retarda a perda paulatina de um eleitor que votou nele, mas não faz parte dos cruzados morais. Este quer emprego e segurança e não irá se satisfazer com escola sem partido, com a pirotecnia de rede social ou da Damares Alves.

Como vencer? A imprensa, mesmo sem querer, faz o jogo de Bolsonaro. Os jornais do pais só falam nas postagens do presidente feitas nos últimos dias. Bem ou mal, ele pautou todo mundo. A consequência impremeditada é apagar com gasolina a desejada polarização governista. Talvez, mais interessante seria agir para desarmá-la. Mas aí seria necessária uma auto-crítica vinda dos próprios veículos, encenando agora horror, por terem tratado um cara autoritário como aspirante a estadista há poucos meses atrás. Penso ser, no entanto, improvável. Ficarão mesmo é com o: “ó, como o Bolsonaro nos envergonha. Como ele é despreparado para o cargo”.

Jair Bolsonaro não é um incapaz. Que ninguém entre nessa esparrela. Ele representa retrocesso, pois significa, para ser benevolente, uma concepção estreita de democracia e alargada de restauração de uma ordem excludente ultrapassada.

Resta o ensinamento, que aliás não é meu. Ele saiu do livro “como as democracias morrem”. Não é realista imaginar que um candidato de viés autoritário – e dado a escatologias – venha a agir de outro modo quando presidente. A lição se fez verdade mais rápido do que imaginavamos. Que a gente aprenda com ela.

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