Pós-vergonha

Pós-vergonha

Maquiavel era um grande cético sobre os lances para a plateia dos príncipes, ainda que reconheccesse sua importância. “Cabe ao bom príncipe passar a impressão de que segue a moral vigente”, dizia o italiano mais ou menos assim. Me parece que esta precaução foi para o espaço com o encastelamento de Temer e seu grupo. Entrando na éra dos “pós”, seria a pós-vergonha?
Bem, há muita coisa envolvida e sei que a maioria no facebook passa a ler cada vez menos na razão em que se escreve mais e mais linhas (a maioria raramente passa do título).
Mas gostaria de levantar algumas suposições: penso que na medida em que o sistema político todo foi colocado na vala comum de qualquer coisa… criou-se uma consequência não intencional: a licença, na prática, dada para que o representante se distancie do representado. Se o congresso é um lixo, para quê agir diferente? O “entulho” vira proteção e esconderijo para todo tipo de posicionamento. Acabamos com o aspecto coercitivo da “vergonha”. Enfim, temos responsabilidade também com esta situação, dado que estamos contribuindo para esse comportamento parlamentar desde 2013.
Tudo que os “homens de bem” condenavam no presidencialismo de coalizão, dentro desta lógica, se generalizou de vez, atingindo novo patamar – antes, emendas eram concedidas para que o executivo tivesse poder de agenda, poder de aprovar seus projetos. Nada anormal nas democracias ocidentais. Agora, nesse ambiente em que não é necessário sequer mais disfarçar bons modos, emenda virou moeda para livrar gente da cadeia, votos são comprados com redução de impostos e até com a suspensão da regulação do trabalho escravo.
Outra coisa: a estratégia do Rodrigo Janot de fazer listas generalizadas, colocando nomes de deputados e senadores com crimes prescritos e agora sabidamente sem provas – apenas uma reles delação -, criou o seu contrário. Ao invés de emparedar o sistema político em prol de uma suposta limpeza, gerou uma sensação, uma cruzada aberta em busca da auto-salvação, esfacelando o funcionamento normal das instituições.
Bem, acho – vibe bem precária mesmo – que as ideias têm poder e este negócio de pedir o fim da corrupção de modo ensandecido criou o pior dos mundos, no caso, o nosso.
PS. Se você leu até aqui tem direito a uma caixa de cerveja Heineken.
PS.2. Pós-verdade.

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