Trecho de livro: pesquisas mostram como a falsa promessa de proteção pela ivermectina contribuiu para que os natalenses perdessem o medo da pandemia, se expussessem e apoiassem a abertura do comércio da cidade

Estou escrevendo, em parceria com outros professores, a história da pandemia em Natal a partir da promessa de proteção dos seus cidadãos pela ivermectina. Achei oportuno publicar trecho do rascunho da obra, até para corroborar o que a médica Dra Marise Reis disse hoje em entrevista ao RNTV – que a ivermectina não oferece qualquer proteçao contra covid-19, que quem se encontra hoje nas UTIs da cidade tomou o vermífugo e que a falsa ideia de que a ivermectina protege contra o coronavírus leva a exacerbação da pandemia em Natal. É uma realidade insofismável.

Apliquei duas pesquisas de opinião em Natal com 800 entrevistados cada, uma em julho de 2020 e outra recentemente, já em 2021. A maioria dos natalenses apoiou a abertura do comércio e perdeu o medo da pandemia porque acreditou que a ivermectina funcionava contra o novo coronavírus.

O discurso amplamente batido diariamente na imprensa local pelas autoridades de Natal, associações comerciais e sindicatos do médicos do RN ganhou aderência e levou a maioria dos cidadãos a fazer o chamado tratamento profilático com o vermífugo, conforme os números revelam.

Apesar do discurso de comemoração propagado na cidade, que contribuiu para a vitória de Álvaro Dias em 2020, um projeto das elites locais; Natal, que tem 24% da população do RN, chegou ao término do pico da primeira onda, a acumular metades dos óbitos do RN.

Desfazer essa falsa ideia de proteção é fundamental para levar as pessoas a se cuidarem mais. Porém, o impasse é que isto significa expor a operação montada durante a pandemia para eleger Álvaro Dias. Daí a relutância local em aceitar a verdade.

Leia o trecho do rascunho da obra em andamento abaixo com alguns números das pesquisas empreendidas:

SURVEYS

Logo após a divulgação da distribuição em massa do vermífugo, foi aplicada uma pesquisa de opinião na cidade sobre a crença na eficácia da ivermectina contra o coronavírus e outras medidas anunciadas em plano local.

O levantamento foi aplicado entre os dias 09 e 10 de Julho de 2020, contendo 800 entrevistas distribuídas, respeitando as proporções do universo investigado de sexo, renda, escolaridade, idade e distribuição espacial dos cidadãos no município. O intervalo de confiança é de 95% e a margem de erro de 3.5%.

Trata-se, como já expresso acima, de um momento crítico da chamada primeira onda de impacto do coronavírus no Rio Grande do Norte. Conforme aponta os dados do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LAIS/UFRN), o mesmo que antecedeu a aplicação do survey foi o pior de 2020 em termos de casos acumulados e no número de óbitos.

Gráfico 01 – Evolução da covid-19 no RN por casos acumulados e no número de óbitos

Fonte: LAIS/UFRN

A distribuição também ocorreu especificamente na cidade do Natal, conforme também dados compilados pelo LAIS/UFRN da secretaria de saúde do RN (SESAP/RN).

Gráfico 01 – Evolução da covid-19 em Natal por casos acumulados e no número de óbitos

Fonte: LAIS/UFRN

O momento não era para comemoração, em especial no município do Natal, que era castigada com a pandemia e dava fortes sinais de esfacelamento do seu sistema de saúde, ainda que com a ampliação de leitos empreendida pela Prefeitura do Natal e pelo Governo do RN. A jornalista Cledivânia Pereira, em matéria para o jornal Folha de São Paulo no dia 06 de Julho, registra o cenário que ocorre em Natal.

“O Rio Grande do Norte teve até está segunda (6) mais de 35 mil casos confirmados da doença, com 1.254 mortes. Natal concentra quase a metade dos óbitos. A capital do estado registra uma ocupação de 100% dos leitos da rede estadual há pelo menos um mês. Ela e outras 12 capitais brasileiras preocupam pela alta ocupação de leitos de UTI para pacientes no estado mais grave da doença (PEREIRA, 2021, p.01).”

No momento da aplicação da pesquisa, a maioria já se encontrava a favor da abertura do comércio em Natal. Conforme o levantamento empreendido, 74% responderam afirmativamente e apenas 23% entendiam que não era hora de flexibilizar as medidas de isolamento social. Por fim, 3% não responderam.

Gráfico 00 – O(A) Sr(a) é a favor da abertura do comércio de Natal?

Fonte: Dados primários

A taxa de isolamento social, conforme a plataforma in loco, que mede a movimentação das pessoas através de seus smartphones, já registrava no dia 21 de junho a menor em toda sua série no Rio Grande do Norte – 39.1%. O isolamento social no RN começou no dia 13 de Março, a partir do decreto estadual 29.513. A partir de então, esse patamar se manteve, que era um dos mais baixos do país, conforme noticiado pela imprensa local.

A ausência de coordenação federal distante dos apelos locais retirou a possibilidade de uma atuação, digamos assim, mais técnica por parte dos poderes públicos locais. Vale lembrar que estes eram pressionados politicamente pela proximidade do processo eleitoral, o que favorecia a medidas eleitorais de impacto de curto período em detrimento daquilo que daria resultado apenas após longa travessia e poderia trazer incompreensões momentâneas. Estes foram pressionados por associações comerciais em prol da abertura do comércio e pelos próprios cidadãos.

A informação desencontrada entre os entes também demonstrou-se deletéria. Em pleno pico da pandemia, existiam três orientações. A do governo federal de negação direta do problema, do governo do Estado clamando pela manutenção do isolamento social e da prefeitura do Natal, alegando que existia agora um remédio com capacidade profilática contra covid-19. Cientistas e formadores de opinião se faziam presentes na imprensa, pedindo para que a população permanecesse em casa e tomando todos os cuidados sanitários necessários. Porém, diante da configuração expressa, trata-se de discurso com limitado poder de alcance em face das informações desencontradas vindas dos entes públicos. Nesse contexto, culpar o cidadão isoladamente, implica em perder de vista toda a ambiência institucional que se revelou mortal.

Gráfico 00 – Índice de isolamento social pela captura de movimentação de telefones celulares

Fonte: In Loco

O medo de adoecer pelo coronavírus estava presente. Além disso, as matérias sobre super lotação dos hospitais também passaram a fazer parte da rotina na cidade. Natal foi objeto de reportagens sobre a situação das suas unidades de pronto de atendimento lotadas e com pacientes, esperando nas calçadas, nos programas jornalísticos da Globo.

            O receio de contrair, por exemplo, o coronavírus é maior do que perder o emprego para 72% dos entrevistados. Além disso, para 47% dos entrevistados, uma vez doentes, eles não tinham a expectativa de conseguir vaga em um hospital.

Gráfico 00 – Qual o seu maior medo? Adoecer ou perder o emprego/renda?

Fonte: Dados primários

Gráfico 00 – Caso seja infectado pela covid-19, o(a) sr(a) acredita que conseguirá vaga nos hospitais?

Fonte: Dados primários

O momento em análise estava coberto pela distribuição do auxílio emergencial, uma medida aprovada pelo congresso nacional em que cada cidadão poderia receber 600 reais para microempreendedores individuais, desempregados e trabalhadores informais. Poderia receber o auxílio quem tivesse uma renda por membro da família inferior a R$ 522,50. A renda mensal familiar também não poderia ser superior a três salários mínimos, isto é, R$ 3.135,00.

            Pelo levantamento aplicado, praticamente metade dos entrevistados receberam o auxílio do governo federal.

Recebeu o auxílio emergencial dado pelo governo federal? %
Sim 46,3
Não 49,5
NS/NR 4,3
Total 100,0

Tabela 00 – Recebeu o auxílio emergencial dado pelo governo federal?

Fonte: Dados primários

            Ainda assim, a maioria se mostra a favor da abertura do comércio. Conforme o levantamento, 74% desejam a abertura do comércio, contra 23% que disseram ser contrários.

Gráfico 00 – O(a) Sr(a) é favorável a abertura do comércio diante da situação da pandemia?

Fonte: Dados primários

            Há aqui uma contradição, que é apenas aparente. Os entrevistados têm medo de adoecer e de ficarem sem atendimento, praticamente metade recebeu o auxílio emergencial e, ainda assim, a maioria deseja a abertura do comércio. Ora, na verdade, a hipótese mais provável é que, na percepção dos entrevistados, o auxílio não era suficiente para a manutenção de suas necessidades materiais e que a abertura do comércio poderia ser feita de forma segura. Como já fora mencionado, desde Abril de 2020 o sindicato dos médicos já falava na possibilidade de abertura e, além disso, as associações comerciais e a imprensa local passaram a enfatizar a crise que se avizinhava economicamente e que a abertura ocorreria de forma segura, através do emprego de protocolos sanitários.

            Após a tentativa por parte do sindicato dos trabalhadores da saúde do RN (SINDSAÚDE/RN), de implementar pela via judicial o lockdown na cidade no dia 13 de Maio de 2020, o sindicatos do médicos e a associação comercial do bairro do alecrim, o principal no quesito de Natal, e a câmara de dirigentes lojistas (CDL), recorreram. O Sinmed defendeu a adoção do tratamento precoce, conjunto de remédios contra covid-19 defendido pelo governo federal, para impedir que as pessoas cheguem até a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e a CDL alegou que o fechamento total da economia geraria graves perdas econômicas, fome e desemprego. O Rio Grande do Norte já apresentava os piores índices de isolamento social do nordeste e as imagens do comércio de rua do alecrim lotado eram rotineiros. A justiça, após ouvir o governo do RN e a prefeitura do Natal, não aprovou a implementação do lockdown (G1, 2021e).

            O Sindicato dos Médicos do RN nunca apresentou nenhuma evidência científica do que passou a defender. Mas a defesa da cloroquina e, principalmente, da ivermectina veio com toda a força, através de amplo espaço concedido na imprensa, Tvs e rádios da cidade. Os médicos defensores do tratamento profilático com o remédio para verme se tornaram verdadeiras estrelas e campeões de audiência no youtube rede agora também explorada pelas rádios, nos grupos de whatsapp e nos blogs de notícias. O chamado comité científico de Natal de enfrentamento ao coronavírus organizado pelo prefeito Álvaro Dias, também um entusiasta do tratamento profilático com ivermectina, aprovou a distribuição pela prefeitura do Natal do vermífugo. O presidente do comitê, o médico infectologista Fernando Suassuna, era o principal defensor da saída agora completamente legitimada em Natal.

            A distribuição de ivermectina e outros remédios se deu em grandes ginásios esportivos da cidade, os centros de tratamento precoce, três ao todo. A operação se iniciou no dia 7 de Julho de 2020. Após uma triagem, a pessoa recebia orientação médica e até 11 remédios, sendo o vermífugo o carro chefe e tinha apoio do Conselho Regional de Medicina do RN (CREMERN). Como reconhece o secretário de saúde George Antunes em uma entrevista concedida a Agência Pública “a população estava ávida por uma resposta no âmbito tanto da profilaxia como do tratamento [da Covid-19].” Porém, negou que o remédio fora adotado por pressão popular (AGÊNCIA PÚBLICA, 2021).

            Além de testemunhos de médicos sobre o sucesso da ivermectina contra covid-19, o próprio secretário de saúde de Natal, em entrevista a uma rádio da cidade, disse que a capital do Rio Grande do Norte era um grande caso de sucesso e que a situação positiva diante da pandemia poderia ser creditada ao emprego em massa da ivermectina como profilático contra a doença (RÁDIO 98 FM, 2021).

            O “sucesso de Natal no uso da ivermectina” circulou nas redes sociais como verdade incontestável, o que necessitou de desmentidos de agências de checagem nacional. Não apenas isso, a própria Agência Pública cuidou em sua ampla reportagem de demonstrar que esse sucesso inexistia. Os dados estatísticos eram insofismáveis.

Até 8 de outubro, dados do Ministério da Saúde indicavam que Natal apresentava 112 mortes e 2.797 casos de Covid-19 a cada 100 mil habitantes, proporções superiores às do Rio Grande do Norte e às do Brasil

Gráfico 00 – Casos e óbitos confirmados por covid-19 em Natal, Rio Grande de Norte e no Brasil

Fonte: Agência Pública (2021)

            Os dados estatísticos de casos e óbitos eram e permanecem sem qualquer margem para dúvida. Natal não é exemplo de enfrentamento de combate ao coronavírus. Diz a agência pública (2021), “até 8 de outubro, de acordo com o Ministério da Saúde, Natal tinha 24,7 mil casos confirmados e 995 óbitos por Covid-19. É a 14º capital brasileira com maior índice de mortalidade, com 112 mortes por 100 mil habitantes”.

Porém, sem correr o risco de cometer qualquer tipo de injustiça, a imprensa majoritariamente referendava a versão da prefeitura como uma verdade, os médicos defensores do tratamento precoce e do tratamento profilático com ivermectina eram recebidos como heróis salvadores de vidas e mesmo quando alegavam que não existia evidência científica, os jornalistas apresentavam supostos casos individuais de sucesso e enfatizavam, após toda a retórica pró-ivermectina, que as pessoas eram livres para escolher, em conjunto com o médico, se queriam ou não tomar.

A afirmação “não tem evidência científica” era apresentada como um lado da história e não como sentença para no mínimo estabelecer maior cautela. O médico e infectologista Kleber Luz, lembra a reportagem da agência pública (2021), organizou uma nota como chefe do departamento de infectologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, juntamente com outros professores, e a publicizaram no dia 9 de julho, lembrando que não havia qualquer evidência na literatura e nos estudos especializados sobre a eficácia do tratamento precoce e da ivermectina contra o coronavírus. Ainda assim, a nota não foi capaz de conter as alegações em prol dos remédios supostamente salvadores.

Até porque, logo em seguida, no dia 11 de julho, 300 médicos de diversas especialidades assinaram uma carta em defesa do uso da cloroquina e da ivermectina contra covid-19. A carta é um documento significativo do pensamento pseudocientífico que permeava a esfera pública da cidade. Na missiva, os médicos estabeleciam a confusão cara ao ministério da saúde entre procurar logo um médico, com utilizar os medicamentos preconizados pelo ministério da saúde que passaram a ser chamados de “tratamento precoce”. Os remédios não são diretamente citados, mas todos sabiam do que se tratava. Tanto que eles eram mencionados pelos representantes da classe médica, médicos e políticos em entrevistas e declarações públicas.

A carta começa:

“Defendemos o tratamento precoce baseado na compreensão dos fenômenos fisiopatológicos que ocorrem na doença e em vários trabalhos científicos que demonstraram melhores resultados em pacientes que usaram medicamentos nas fases iniciais da COVID19. Somos médicos de diversas especialidades que trabalham em unidades básicas, ambulatórios, consultórios, enfermarias, UTIs e unidades de emergências. Estamos convictos da necessidade de tratamento nas fases iniciais da COVID19, considerando a gravidade e a incerteza da evolução dessa doença e do seu forte impacto nos sistemas de saúde do mundo inteiro. Milhares de médicos têm observado que tratar a COVID19 logo no início pode evitar a necessidade de internação, de intubação e ventilação mecânica e, consequentemente, diminuir o risco de morte. Estas observações têm se repetido em países europeus, em vários estados do Brasil e aqui entre nós. O tratamento precoce pode salvar vidas, emprega medicamentos antigos e seguros, é simples e acessível a todos! (TRIBUNA DO NORTE, 2021c)”.  

Enquanto a nota do departamento de infectologia da UFRN identificava a ausência de estudos e trazia uma bibliografia anexada, a carta dos 300 profissionais falava em estudos científicos mas não os relacionava. No entanto, do ponto de vista retórico, enfatizavam as suas experiências e autoridades enquanto médicos e diziam ser “milhares”. Era o tom adotado pelos defensores da cloroquina e da ivermectina que se banalizou em Natal. Uso mágico da noção de autoridade o que habilitaria para “observar” a importância do tratamento precoce, percepção na “prática” de que os remédios funcionam e a falácia da quantidade para dizer que o tratamento era largamente aceito pela classe médica, portanto, legítimo. Por fim, a sempre presente citação de exemplos longínquos de sucesso, na carta, representado pelos “países europeus”. Ora, nesse momento, a Europa já havia abandonado a cloroquina como possibilidade de tratamento e nunca sequer chegou a usar a ivermectina como opção medicamentosa contra a covid-19. A carta era fundamentada em artifícios sofísticos, por um lado, e absoluta falta de verdade, por outro.

            E os médicos finalizam:

“Reconhecemos a importância da medicina baseada em evidências, mas diante de uma doença aguda, pandêmica e devastadora como a COVID19, não podemos esperar os resultados de estudos científicos robustos, pois eles são demorados e complexos de realizar. Vivemos um momento inédito na medicina moderna, que exige de nós prudência e atitudes assertivas! Portanto, nossa proposta baseia-se em estudos clínicos observacionais, no conhecimento fisiopatológico da COVID19, na farmacologia e nos estudos in vitro dos medicamentos propostos, no bom senso e nos princípios da benevolência e da não maleficência, que devem guiar sempre a boa prática médica! Lembramos que a precrição é um ato médico e, portanto, desestimulamos fortemente a auto-medicação (TRIBUNA DO NORTE, 2021c)”.   

A contradição é visível. Basta saber ler. Alegam que reconhecem a importância da medicina baseada em evidências, isto é, dialogam indiretamente com a nota do departamento de infectologia da UFRN, que tinha como mote principal essa afirmação. Porém, dizem não ter tempo para esperar o resultado de estudos demorados e complexos de realizar. A ausência de fundamentação científica reconhecida é, logo em seguida, contraposta por uma “atitude assertiva” no conhecimento fisiopatológico, estudos in vitro e observação.

            A carta foi comemorada e amplamente debatida em tom elogioso pela imprensa local. Os médicos críticos do “tratamento precoce” chegavam a ser até enquadrados como os que não viam a importância de salvar vidas e estavam politizando a doença. A denúncia de politização se dava porque, segundo os defensores do tratamento precoce, os críticos não aceitavam a cloroquina e a ivermectina porque elas eram defendidas pelo presidente Jair Bolsonaro. Para eles, portanto, a não aceitação dos remédios contra covid-19 se devia a uma tentativa de atingir o presidente da república (SETCERN, 2021).

Naquele momento, o contexto era favorável – até porque ele foi incentivado – à crença no poder da cloroquina e, principalmente, da ivermectina em Natal contra o novo coronavírus. No levamento de opinião empreendido entre os dias 9 e 10 de julho em Natal com 800 pessoas, 53% dos entrevistados acreditavam que a cloroquina era eficaz contra o novo coronavírus. Este grupo no caso da ivermectina era ainda maior – 69%.

O(a) Sr(a) acredita que a cloroquina funciona contra o novo coronavírus?

Fonte: Dados primários

O(a) Sr(a) acredita que a ivermectina funciona contra o novo coronavírus?

Fonte: Dados primários

A estratégia de propagação da ivermectina como saída para a pandemia, amplamente incentiva pelo poder público local, ganhou inegavelmente aderência entre os natalenses. Não apenas isto, há também outros elementos que foram descobertos pelo levantamento aplicado em julho de 2020.

O discurso elaborado pelas associações médicas, pelo comitê científico de enfrentamento ao coronavírus de Natal e por outros agentes interessados na abertura do comércio funcionou. Ao aplicar o teste de significância de Pearson, em que até 0,05 há correlação significativa, fica nítida a associação entre acreditar no poder da ivermectina com se colocar a favor da abertura do comércio em Natal. Em sentido inverso, a minoria que não acreditava na ivermectina, não apenas era contrária a abertura do comércio, como também era mais crítica na avaliação da fiscalização pela polícia militar, que estava nas ruas naquele momento para impedir aglomerações. Porém, era alvo de críticas por não cercear festas e outros eventos na cidade.

Outra associação também sinaliza para a formação do contexto. Perguntados sobre como se identificam, cerca de 1/5 dos entrevistados se disseram de esquerda e outro patamar semelhante de direita. Entre aqueles que se diziam de direita, a crença no poder da ivermectina contra covid-19 era uma realidade. Já o grupo de esquerda não acreditava que a ivermectina tivesse efeito contra o novo coronavírus. A correlação expressa o contexto polarizado em que a direita organizada se mostrava a favor da cloroquina e, depois, da ivermectina por serem propagandeadas pelo presidente Jair Bolsonaro. Já a esquerda, em oposição ao presidente, também tendia a ter visão mais crítica ao uso de remédios sem comprovação pela ciência.

Outro aspecto significativo é que, aqueles que mais tinham medo de adoecer, em contraposição aos que temiam perder o emprego, eram os que mais acreditavam na eficácia da ivermectina contra covid-19.

Crosstab
% do Total 
  Na sua opinião, a IVERMECTINA funciona contra o coronavírus? Total
Sim Não NS/NR
É a favor da abertura do comércio de Natal? Sim 51,1% 14,1% 8,1% 73,4%
Não 15,9% 6,3% 1,1% 23,3%
NS/NR 2,6% 0,3% 0,5% 3,4%
Total 69,6% 20,6% 9,8% 100,0%
Testes qui-quadrado
  Valor gl Significância Assintótica (Bilateral)
Qui-quadrado de Pearson 13,028a 4 ,011
Razão de verossimilhança 14,388 4 ,006
Associação Linear por Linear ,712 1 ,399
N de Casos Válidos 800    
a. 1 células (11,1%) esperavam uma contagem menor que 5. A contagem mínima esperada é 2,63.

Tabulação cruzada Diante da pandemia de coronavírus, qual é o seu maior medo?  * Na sua opinião, a IVERMECTINA funciona contra o coronavírus?
% do Total 
  Na sua opinião, a IVERMECTINA funciona contra o coronavírus? Total
Sim Não NS/NR
Diante da pandemia de coronavírus, qual é o seu maior medo? Adoecer 49,9% 14,6% 7,6% 72,1%
Perder emprego/renda 18,8% 5,1% 1,8% 25,6%
NS/NR 1,0% 0,9% 0,4% 2,3%
Total 69,6% 20,6% 9,8% 100,0%
Testes qui-quadrado
  Valor gl Significância Assintótica (Bilateral)
Qui-quadrado de Pearson 8,088a 4 ,088
Razão de verossimilhança 7,764 4 ,101
Associação Linear por Linear ,032 1 ,857
N de Casos Válidos 800    
a. 2 células (22,2%) esperavam uma contagem menor que 5. A contagem mínima esperada é 1,76.
Tabulação cruzada É a favor da abertura do comércio de Natal? * Diante da pandemia de coronavírus, qual é o seu maior medo?
% do Total 
  Diante da pandemia de coronavírus, qual é o seu maior medo? Total
Adoecer Perder emprego/renda NS/NR
É a favor da abertura do comércio de Natal? Sim 53,6% 18,4% 1,4% 73,4%
Não 16,1% 6,8% 0,4% 23,3%
NS/NR 2,4% 0,5% 0,5% 3,4%
Total 72,1% 25,6% 2,3% 100,0%
Testes qui-quadrado
  Valor gl Significância Assintótica (Bilateral)
Qui-quadrado de Pearson 22,085a 4 ,000
Razão de verossimilhança 11,683 4 ,020
Associação Linear por Linear 2,410 1 ,121
N de Casos Válidos 800    
a. 2 células (22,2%) esperavam uma contagem menor que 5. A contagem mínima esperada é ,61.
Tabulação cruzada O(A) sr(a) se define politicamente como de esquerda ou de direita?  * Na sua opinião, a IVERMECTINA funciona contra o coronavírus?
% do Total 
  Na sua opinião, a IVERMECTINA funciona contra o coronavírus? Total
Sim Não NS/NR
O(A) sr(a) se define politicamente como de esquerda ou de direita? Esquerda 14,2% 5,1% 1,4% 20,8%
Direita 21,6% 4,4% 1,0% 27,0%
NS/NR 33,8% 11,1% 7,4% 52,3%
Total 69,6% 20,6% 9,8% 100,0%
Testes qui-quadrado
  Valor gl Significância Assintótica (Bilateral)
Qui-quadrado de Pearson 26,342a 4 ,000
Razão de verossimilhança 28,049 4 ,000
Associação Linear por Linear 8,363 1 ,004
N de Casos Válidos 800    
a. 0 células (0,0%) esperavam uma contagem menor que 5. A contagem mínima esperada é 16,19.
% do Total 
  Na sua opinião, a IVERMECITINA funciona contra o coronavírus? Total
Sim Não NS/NR
Como você avalia a fiscalização pelos agentes de segurança (PM, Policia Civi) para cumprimento das medidas de isolamento social em estabelecimentos comerciais? Ótimo 6,1% 2,1% 2,5% 10,8%
Bom 16,9% 3,4% 1,3% 21,5%
Regular 22,8% 4,9% 4,1% 31,8%
Ruim 11,4% 3,8% 0,9% 16,0%
Péssimo 5,8% 2,5%   8,3%
NA 6,8% 4,0% 1,0% 11,8%
Total 69,6% 20,6% 9,8% 100,0%
Testes qui-quadrado
  Valor gl Significância Assintótica (Bilateral)
Qui-quadrado de Pearson 53,829a 10 ,000
Razão de verossimilhança 55,325 10 ,000
Associação Linear por Linear ,209 1 ,648
N de Casos Válidos 800    
a. 0 células (0,0%) esperavam uma contagem menor que 5. A contagem mínima esperada é 6,44.

O levantamento aponta para uma associação e demonstra a importância de levar em conta a comunicação das autoridades, principalmente em contexto de pandemia. Os mesmos entrevistados que mais temiam adoecer, eram os que mais acreditaram na força da ivermectina. Portanto, a crença na ivermectina, não apenas os fez perderem esse medo, como também apoiar a abertura do comércio de Natal. Os que rechaçavam a aplicação da ivermectina contra covid-19 ficaram mais preocupados com a perda do emprego e da renda, por um pessimismo de fundo em que o horizonte não está dado ao menos no curto período de cura e proteção contra a pandemia.

Um novo levantamento foi aplicado entre os dias 16 e 18 de janeiro de 2021, contendo também 800 entrevistas aplicadas em toda a Natal com uma amostra representativa do universo, sendo controlada pelas cotas de idade, sexo, renda, escolaridade e distribuição espacial dos moradores. Nesse momento, após o crescimento das críticas na imprensa nacional, em discursos feitos por agências de saúde do mundo e por cientistas contra o tratamento precoce e, em especial, contra a ivermectina, a crença em sua eficácia contra o coronavírus caiu. Apesar do número ainda significativo, 45% dos entrevistados ainda defendiam o uso da ivermectina contra covid-19 contra 69%, que fizeram o mesmo em julho de 2020.

Gráfico 00 – Na sua opinião, a ivermectina funciona contra o novo coronavírus?

Fonte: Dados primários

            Vale também enfatizar que, ainda assim, 51% dos entrevistados admitiram que tomaram o vermífugo como forma de prevenção contra o coronavírus. Se considerarmos que a pesquisa foi aplicada entre respondentes a partir de 16 ou mais – a doença gerada pela pandemia apresenta escasso impacto entre adolescentes e crianças –, estamos falando numa ação em massa de medida profilática contra covid-19, a partir do vermífugo. Mais da metade dos natalenses tomou o remédio pela promessa de que o remédio os deixariam protegidos. A cidade do Natal, portanto, pela quantidade de vermífugo empregada pelos seus moradores, deveria ser um caso de sucesso (de fato) caso a ivermectina tivesse o efeito prometido pela prefeitura e seu comitê científico de enfrentamento ao coronavírus.

Gráfico 00 – O(A) sr(a) fez uso da ivermectina como forma de prevenção contra o novo coronavírus?

Fonte: Dados primários

O número maior agora é o de quem alega que irá se vacinar, assim que o imunizante estiver disponível. Este contingente representa 75% dos entrevistados.A queda do prestígio do prometido profilático adquire agora papel secundário. O prefeito Álvaro Dias (PSDB) se reelegeu com facilidade ainda em primeiro turno. Em um pleito com treze candidatos, ele obteve 56,58% dos votos válidos. O segundo colocado, o senador Jean, atingiu apenas 14,38%.            

Como lembra Almeida (2015), a avaliação do desempenho do gestor pelos eleitores é um critério fundamental para saber a respeito da sua viabilidade em termos de possibilidade de reeleição. E Álvaro Dias viu sua aprovação aumentar em mais de 20% durante a pandemia.

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